Uma mulher homossexual mais velha me disse outro dia que acha ótimo a evolução da sociedade em relação à homossexualidade.

“Hoje as pessoas aceitam muito mais. Há muitos pais mais abertos a isso… o preconceito diminuiu. Na minha época era muito difícil. As pessoas tinham que sair de casa, eram expulsas, ninguém entendia muito bem isso…”.

É verdade. Os tempos são outros, mas ainda carregam uma série de preconceitos. Essa realidade ainda existe em muitos lares. Muitos pais ainda são muito tradicionais. A religião acaba influenciando também a negar o que “parece ser diferente”, quando a religião na verdade deveria aceitar as pessoas como elas são. O amor está acima de tudo, não é verdade?

E por todos esses receios do “mundo lá fora” é que essa mulher me disse: “Mesmo achando boa essa evolução, acho muito ruim essas adolescentes que se beijam no metrô e nas ruas. Para que precisam se expor?”

Foi quando o nosso debate começou. Eu disse que, na verdade, isso era ótimo. Essas meninas estão provando que o beijo  gay em público é algo absolutamente natural, que pode acontecer em qualquer idade. Quanto mais normal isso for, menos preconceito sofreremos. Não houve um tempo em que o próprio beijo heterossexual era proibido nas ruas e depois passou a ser algo absolutamente normal? Não houve um tempo em que as mulheres não trabalhavam fora de casa e que negros não ocupavam altos cargos?

Pois as conquistas começam a acontecer dessa forma. Elas não são fáceis. Muitas pessoas acabam sofrendo com isso. Os exemplos vemos pelas ruas todos os dias, com tragédias de homossexuais apanhando ou sendo assassinados apenas por andarem de mãos dadas ou beijarem alguém do mesmo sexo.

Essa ignorância precisa começar a acabar. Ninguém precisa ficar se escondendo atrás do armário. Estou pregando isso, mas ao mesmo tempo sou hipócrita. Como eu disse, não é algo fácil de se fazer. Estou tentando aos poucos. Ainda não saio nas ruas de mãos dadas com a minha namorada. Somos bem discretas, na verdade. Tanto que nunca ninguém percebe que somos um casal. Algumas cenas engraçadas já aconteceram por conta disso.

Uma vez fomos deixar o carro no valet com o manobrista e ele nos alertou: “Essa é uma balada gay, vocês sabiam disso? Mesmo assim vão entrar?”. Demos risada e minha namorada respondeu: “Somos um casal”. Ele ficou sem graça e, mudo, pegou a chave do carro para sair dali rapidamente. Não foi só uma vez que esse tipo de coisa aconteceu. Na outra vez, estávamos saindo cedo de uma balada, quando outro manobrista nos perguntou. “Já vão embora? Ah, imagino… aí tem muito gay também né, vocês não devem ter gostado”. A resposta foi a mesma. E mais um ficou sem graça.

As pessoas sempre acham que somos amigas. Outro dia, um homem veio abordar a minha namorada em um restaurante. Eu disse a ele que ela não podia conversar. Ele não entendeu e continuou tentando. Tive que ser mais firme. Não sei se ele se tocou que se tratava da minha namorada. E esse é o grande problema. Enquanto não “nos abrimos”  para o “público geral”, essas coisas continuarão acontecendo. E é bem ruim, na verdade.

No trabalho, no Dia dos Namorados, muita gente veio me falar se eu ia a uma balada para solteiros. Eu disse que não, que ficaria em casa. Isso porque ninguém sabe que eu namoro. Se eu falar isso por lá, as pessoas vão querer saber tudo: nome, endereço, cor dos olhos, etc. E eu sou péssima para mentir. Prefiro estar preparada para falar de vez que namoro uma mulher.

Escondendo o que somos verdadeiramente perdemos muito com isso. E eu sei, pessoal, o quanto é difícil. E muito dessa dificuldade está em conseguir encarar essa homofobia. A minha namorada, por exemplo, estava beijando a ex dela no carro quando começaram a tacar pedras no veículo. As pessoas começaram a xingar e a gritar com as duas. Elas retrucaram um pouco e depois decidiram ir embora do lugar. E isso aconteceu em uma cidade grande e “evoluída” como São Paulo.

E é esse preconceito que não nos deixa conseguir falar para todo mundo (só para pessoas confiáveis, no meu caso amigos e familiares). Mesmo assim estou bem comigo mesma. Muito feliz por ter tido coragem de realizar o meu desejo.

O próximo passo é contar no meu trabalho e aos poucos conseguir beijar em público em um lugar que não seja GLS, porque isso já fazemos.

Boa sorte para nós!