The L World, uma da séries lésbicas mais famosas da TV, e uma inspiração para muitas mulheres que não conseguem se assumir

Quando eu era pequena, muitas pessoas achavam que eu era lésbica. Eu preferia as brincadeiras dos meninos e não era, digamos, aquela menininha que adorava usar vestidinhos. Nessa época fui alvo de crianças malvadas, que me infernizaram até os meus dez anos. Depois disso tudo parou. Principalmente porque comecei a investir mais no meu lado feminino. Troquei as roupas largas pelas justas, comecei a me interessar pelos meninos, a arrumar o cabelo, enfim, me tornei mais vaidosa.

Foi então que um mundo completamente novo surgiu. Os meninos começaram a olhar pra mim. Namoradinhos surgiram e aquele tempo se apagou. Só uma coisa restou: o que antes parecia descabido (beijar mulheres), começou a fazer algum sentido.

Na minha infância não me lembro de ter qualquer interesse por mulheres. Ou pelo menos eu não conseguia entender. Lembro de achar uma menina muito bonita e não parar de observá-lá. Mas não me lembro de ter me apaixonado por ela. Na verdade, era difícil me apaixonar. Não conseguia manter um namoro por muito tempo, logo eu já começava a achar mil feitos no garoto.

Mas enquanto esses namoros curtos aconteciam, as meninas começaram a rondar a minha imaginação. No início, de uma forma muito tímida. Imaginava como seria a sensação de beijar uma mulher, de sentir um perfume feminino, o toque macio. Era ótimo povoar meus pensamentos com essas situações. Quando eu sonhava com isso, parecia tudo muito real. Ficava realmente triste ao acordar.

Foi então que comecei a namorar sério um garoto. Era tudo muito bom. As pessoas nos viam como “casal modelo”. Não brigávamos, nos entendíamos muito bem em vários sentidos, enfim, nada a reclamar. Foram quase oito anos de relacionamento.

Mas eu sabia que existia uma vontade escondida dentro de mim. Só que esse desejo não precisava ser externado…estava tudo bem com meu namorado, por que eu iria querer estragar tudo isso?

Então, quando eu menos esperava, tudo aconteceu. Foi em uma viagem com amigos da faculdade. Como já contei por aqui, uma amiga minha me beijou. Contei ao meu namorado (que não considerou traição) e tudo ficou “bem”. Nos envolvemos mais algumas vezes e decidi parar. Não achei que aquilo era certo (porque eu namorava e ela também). Paramos com tudo isso. Só que a vontade não passou. Então comecei a assistir seriados lésbicos (The L World) e a ir a baladas GLS com uma amiga lésbica “só por curiosidade” (a velha desculpa).

Não fazia absolutamente nada nesses bares e baladas gays. Só ficava observando aquele mundo. E eu me sentia muito bem… me sentia em casa. Existia algo muito forte dentro de mim que queria estar ali mais do que tudo. Mas eu chegava em casa e tudo voltava ao normal.

O resto, alguns de vocês já sabem. Terminei o namoro (não por esses motivos), e resolvi investir nesse novo mundo. Me libertei. Hoje namoro uma mulher e sou muito feliz.

Mas todos os dias me pergunto: isso sempre esteve dentro de mim ou foi algo que surgiu aos poucos? O ambiente e as experiências influenciaram? Se eu parar para analisar friamente, nada disso influenciou. Porque era algo que sempre esteve dentro de mim de alguma forma – talvez eu tenha nascido mesmo bissexual. O ambiente e as experiências só me ajudaram a conseguir viver isso. Sei que se eu não tivesse começado, essa vontade ainda existiria.

Talvez, se você namora um homem e veio parar por aqui, você se sinta assim também. É confuso no começo, mas depois a gente passa a entender melhor. Tenho certeza de que você pode estar muito feliz com ele (e se estiver, tente continuar), mas se um dia decidir viver isso, termine, experimente e se conheça melhor.

Nenhuma terapia é melhor do que isso para chegar a esse autoconhecimento. Aliás, eu não sou contra terapia, sou totalmente a favor. Quem sabe esse profissional também não te ajude a se libertar? Tudo é válido, desde que não prejudique ninguém.