É muito mais fácil assumir a bissexualidade (ou a homossexualidade) quando alguma das suas amigas também é, ou pelo menos aceita isso naturalmente.

Antes de entrar na faculdade, eu não me sentia à vontade para falar sobre o assunto. Lembro até uma vez, na minha adolescência, que uma das meninas do grupo assumiu que beijaria uma mulher, sem nenhum constrangimento. Achei aquilo incrível, mas fui tão covarde naquela época que não consegui assumir que também o faria. Ela ainda questionou todas nós: sério que vocês nunca fariam isso? Ficamos mudas.  Depois de alguns anos, todas essas meninas (inclusive eu) experimentaram o beijo de uma mulher.

Me bate um arrependimento quando lembro desse episódio. Mas sei muito bem por que não tive coragem de assumir. Eu tinha medo, muito medo do que iriam pensar de mim. Medo de ser “diferente”, medo do julgamento. Eu sei o que é sofrer preconceito. Na minha infância, muita gente me tachou de “sapatão”. Eu era uma “menina-moleque”, andava com os meninos, jogava futebol e não gostava de brincar de boneca. As meninas, bravas porque eu não queria brincar com elas, soltavam gritos raivosos dizendo que eu era “sapatão”, “maria-macho” e todos esses termos pejorativos, ainda usados por muita gente. Isso mudou por volta dos 10 anos, como já contei por aqui. As roupas mudaram, a vaidade aumentou e os meninos começaram a perceber a (grande) diferença.

Mas esse trauma ficou. Eu não queria ficar “atrelada” a essa imagem. Quando comecei a namorar homens foi a minha “glória”. Mostrei para aqueles que tinham preconceito que eu “era heterossexual”. E, na verdade, eu achei que era mesmo. Nunca “usei” nenhum homem para esconder o meu desejo por mulheres. Eu realmente gostava de estar com eles. Eu ainda não sabia (ou não tinha me dado conta) da minha atração por mulheres.

Foi então que entrei na faculdade e ganhei um grande “impulso”. As meninas não tinham pudor para falar que beijariam outra mulher. Não falei logo de cara, até demorou um pouco. Mas era tudo tão natural que me senti à vontade para confessar.

Quando conhecemos pessoas que falam sobre isso abertamente, falar fica muito mais fácil. Mas se não fosse isso, talvez, eu nunca tivesse tido a primeira experiência com uma mulher. Quando comecei a me dar conta de como as mulheres poderiam mexer comigo, eu realmente acreditei que aquela vontade ficaria eternamente na minha imaginação. Eu sonhava com mulheres desconhecidas e flertava nas ruas, mas sempre tendo a “certeza” de que aquilo era só um desejo a não ser realizado.

E quando acontece, você mal acredita. No início você se sente “estranha” (não sei se todo mundo). Mas depois que você percebe o quanto gosta do beijo, do toque e de tudo em uma mulher, reconhece que não poderia ter deixado de viver essa experiência.

O “ambiente” conta muito para conseguirmos liberar o que sentimos. Falo abertamente com meus amigos e minha família, todos apoiam me apoiam muito. No trabalho ainda não consegui falar, não me sinto ainda tão à vontade. As meninas são muito legais, têm a cabeça aberta e sei que não teriam nenhum preconceito. Mas elas falam a todo momento de relacionamentos heterossexuais. Costumo entendê-las, porque na maior parte da minha vida também namorei com homens (o último, como muitas já sabem, durou quase oito anos). Mas às vezes, no meio de toda aquela conversa, tenho vontade de falar que sou feliz com uma mulher, que nos vemos todos os dias e que ela é muito importante pra mim. Ao contrário disso, fico quieta. As pessoas do meu “mundo corporativo” ainda acham que estou solteira (ou fingem achar).

Ao mesmo tempo penso que quanto mais natural eu for, mais fácil será. Quando falamos com naturalidade, as pessoas também agem assim com a gente. Você já conheceu alguma lésbica ou bissexual que falasse abertamente sobre o assunto? Se não conhece, pense então em algum menino gay. Se ele trata tudo com naturalidade, fala sobre homens o tempo todo, aquilo não soa muito natural pra você? Ninguém fica comentando “será que ele é gay?”. Nem precisa, ele mesmo já diz. Pois é, talvez seja por aí.

Alguém consegue falar abertamente sobre sua relação homossexual em qualquer lugar? Compartilhe conosco.