teatroFui com a minha namorada a uma peça de teatro que tratava da homossexualidade. As mensagens eram muito bonitas: “vá atrás do seu grande amor”, “respeite o próximo” e “se liberte para ser quem você realmente é”.

Quem tivesse qualquer preconceito poderia sair dali com outra cabeça. O tema foi tratado com tanta delicadeza que chorei  em algumas cenas. Um beijo lésbico entre as atrizes deixou as mensagens ainda mais realistas.

Ao final da peça, nos reunimos com o elenco para um jantar. Uma das atrizes que fez o beijo lésbico sentou ao nosso lado e começou a contar um pouco da sua carreira.

Ela dizia que já tinha trabalhado em TV e em várias outras peças de teatro. Iniciei um papo com ela:

- Como você começou a trabalhar nessa peça? Achei as mensagens tão bonitas, parabéns!
- Pois é…me convidaram. Mas na verdade, eu não aceitei de cara.
- E por que não?
- Ah, tinha um beijo lésbico…imagina o que os meus pais iriam pensar. Demorei a aceitar o papel.

Quando ela disse isso fiquei um pouco paralisada. Me conhecendo, minha namorada chutou minha perna. Ela sabia que eu estava prestes a iniciar um debate. Fiquei quieta em respeito a ela. Ninguém ali sabia que éramos um casal e uma pessoa da família dela que nos acompanhava tinha tomado conhecimento há pouco tempo sobre o nosso namoro.

Mesmo assim, totalmente decepcionada, ainda respondi à atriz:

- Mas qual o problema de os seus pais pensarem isso?
- Qual o problema? Não queria que eles pensassem que sou lésbica. Mas sabe, ao mesmo tempo essa peça me mudou. Eu percebi que tinha mais preconceito do que eu imaginava. Fazer o beijo, tudo foi muito difícil…

Ela continuou a falar, mas eu quase não conseguia mais ouvir. Eu só pensava: “Como alguém que passa uma mensagem tão bonita poderia pensar daquele jeito? Era uma decepção. Antes eu não tivesse falado com ela. Antes eu só tivesse ficado com a impressão de que aquelas atrizes e atores estavam desempenhando um papel importante, que é o de passar uma mensagem de respeito à homossexualidade. Mas no final, parte daquilo era uma farsa. Nem todos ali pensavam realmente assim”.

Depois que saímos do restaurante, conversei a respeito daquela situação com a minha namorada. Ela disse que a conversa tinha sido “triste”, mas tinha um olhar um pouco diferente do meu. “A atriz disse que a peça a ajudou a perceber o quanto tinha preconceito. Acho que de alguma forma, interpretar uma lésbica mudou um pouco a sua forma de pensar…”. Eu parei para refletir e ela tinha razão. Então me dei conta de que aquela atriz só tinha os mesmos medos que os homo e os bissexuais têm: achar que pode decepcionar os pais e ter receio do que os amigos e a família possam pensar.

Mas ela já não deveria pensar assim. Não depois das palavras que ouvi da personagem dela. Não depois daquelas mensagens bonitas. Ela já deveria ter um outro discurso, demonstrando que não haveria vergonha alguma em ser homossexual.

Ao mesmo tempo, eu compreendo que não é uma mensagem fácil de se entender. É difícil encarnar na vida real uma personagem tão corajosa, tão intensa e tão verdadeira. Uma personagem que prega com orgulho a favor da homossexualidade. O que falta (ou faltava?) à atriz é ouvir de fato o que a sua personagem está tentando mostrar ao público.

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