NúmerosLembro até hoje da primeira vez que a minha mãe desconfiou que eu gostava de mulher. Eu tinha uns 10 anos. Disse a ela que estava gostando de uma pessoa. Ela ficou aparentemente nervosa ao perguntar: “Quem?”. Falei que era um garoto da minha escola (e era mesmo). “Ahhh…”, ela sorriu, parecendo aliviada. Mesmo com aquela idade compreendi o seu alívio. “Mãe, você pensou que eu era lésbica?”. Ela negou. Mas eu sabia que era mentira.

Óbvio que a minha mãe achou que eu fosse lésbica. Naquela época eu era praticamente um moleque (conto mais sobre isso nesse post). O meu grupo de amigos era os meninos. As minhas brincadeiras eram as deles: videogame, futebol, bolinha de gude e por aí vai. Apesar disso, naquela época eu gostava apenas de garotos.

Ou pelo menos ainda não entendia que poderia me interessar por mulher. Lembro que eu fazia umas aulas em um clube perto de casa e uma menina me chamava atenção. Eu sempre olhava pra ela, mas nunca entendia o porquê de não querer tirar os olhos da garota. Hoje parece tão óbvio.

Os anos se passaram, fiquei feminina e comecei a namorar com os garotos. Até então, nunca tinha me apaixonado por uma mulher. No colégio, poucas meninas eram assumidas. Aliás, fiquei sabendo apenas alguns anos depois das experiências homossexuais de algumas pessoas. E elas aconteceram depois do colégio (até onde eu sei).

Naquela época de ginásio (hoje o Ensino Médio) só lembro de uma história sobre beijo lésbico. Era de uma amiga minha. Ela sempre falava que precisava me contar algo. Eu dizia, pode confiar, eu já imagino o que seja. Eu sabia que ela gostava de mulheres. Mas ela nunca falava, sempre dizia que um dia me contaria. Em uma determinada semana, ela faltou durante três dias. Perguntei a uma amiga o porquê daquilo. Lembro com exatidão da resposta: “Uma pessoa do colégio a viu beijando uma mulher na balada e, com vergonha, ela deixou de vir à aula”.

Fiquei imaginando como ela deveria estar se sentindo. No colégio, as pessoas são maldosas, fofoqueiras e hipócritas. Sim, porque muitas meninas tinham vontade, mas criticavam.

Anos depois, essa mesma menina envergonhada me chamou para a festa de aniversário dela e me apresentou a namorada sem qualquer constrangimento. Ela era lésbica assumida com orgulho. Foi uma felicidade ver esse progresso.

Em contrapartida, já conheci garotas que se assumiram tranquilamente aos 13 anos, outras aos 15 e etc.. Enfrentaram todos sem nenhum tipo de embaraço. Muitos psicólogos, porém, dizem que a pessoa só terá “certeza” sobre a sua sexualidade na idade adulta. Difícil saber.

Não há idade para se assumir. O que na verdade existe é muita coisa para influenciar positivamente ou negativamente. O ambiente, a fase da vida, a família, os amigos e você mesmo. Tudo isso é importante para ajudar a você se aceitar ou a se entender.

Acredito que eu me descobri no momento certo, sem crise. Se eu, aos 10 anos, respondesse que gostava de uma menina à minha mãe, talvez tivesse sido mais difícil me aceitar. Ela também teria dificuldades para aceitar naquela época. Conhecendo minha mãe, sei que mesmo não gostando muito, ela aceitaria. Mas com algum custo. Talvez ela chorasse ou talvez preferisse esconder aquilo de todos. Não sei. Mas aos 25 anos, o diálogo com ela foi outro. Antes que eu pudesse contar, ela me perguntou se eu era bissexual. Eu disse que sim. “Filha, não tenha medo de me contar esse tipo de coisa. Quero que você seja feliz com quem ou do jeito que você quiser. Vou te apoiar em tudo”. E ufa.

Há quem descubra esse desejo aos 40, 50, 60, não importa. Há aqueles que por vergonha nunca quiseram se assumir e preferiram viver uma mentira e há outros que realmente viveram felizes em uma vida heterossexual. Muita gente não tem oportunidade de realizar os seus desejos, então a vida passa e vem o casamento, os filhos, a carreira e uma série de outras coisas. Não quer dizer necessariamente que o desejo estava “enrustido”, como muitos gostam de falar. Só que a vida tomou um outro rumo, um rumo que você gostou. Mas, de repente, acontece algo na sua vida que pode mudar tudo.

Cada um tem o seu tempo, você vai descobrir o seu. Assim espero.

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