dinnerAdmiro pessoas que começam a namorar alguém do mesmo sexo e já saem falando pra todo mundo. São exemplos a serem seguidos. Eu ainda tenho algumas travas. Namoro há dois anos e meio com uma mulher e já contei para a maioria das pessoas da minha família e do meu círculo de amizades. Mas era difícil compartilhar com os amigos do trabalho, muito difícil.

O primeiro problema era o medo da fofoca, daquelas piadinhas desnecessárias. De saber que as pessoas diriam coisas do tipo “Você não sabe, a Amanda namora mulher…olha o bafo”. Eu me sentiria incomodada. Mesmo sabendo que trabalho em um lugar com pessoas de “mente aberta”. Todos dizem não ter preconceitos e levantam a bandeira do casamento homossexual. Ao mesmo tempo, vira e mexe alguém me dizia: “Você acha que fulano é gay?”. Fofocas e fofocas… é o ser humano, difícil não acontecer.

Mesmo correndo esse risco, resolvi contar para algumas pessoas do trabalho. Estávamos todos sentados em uma mesa, quando eu disse que finalmente estava pronta para falar sobre minha vida amorosa. Silêncio total. Há tempos eles me perguntavam e eu nunca falava nada, dizia que não gostava de falar da minha vida pessoal. Minhas mãos ficaram trêmulas e eu comecei a gaguejar. Pra me ajudar, eles começaram a chutar o que poderia ser: “Você namora alguém do trabalho? É algum chefão? É casado?”. Dei risada e falei, não, gente, na verdade eu namoro uma mulher. As reações foram positivas. “Ahhh, então era isso? Por que você demorou tanto pra contar?”. Outra pessoa comentou: “Nossa, mas eu realmente nunca imaginei. Você não leva jeito”.

É engraçado esse tipo de frase.  As pessoas ainda têm na cabeça um esteriótipo do que é ser gay ou bissexual. Precisa levar jeito, ter trejeitos. Às vezes as pessoas fazem piadas do tipo: “Aquele cara não é homem, é gay”. E desde quando gay, lésbica ou bissexual deixa de ser homem ou mulher? Não é porque eu gosto de mulher que preciso virar um homem. Obviamente há mulheres que preferem se identificar dessa forma, mas não é uma regra.

Mas meus amigos sabem de tudo isso e continuam me tratando normalmente. Agora querem conhecer a minha namorada.

Eu já imaginava que as reações seriam essas, afinal, eles são pessoas com a cabeça muito aberta. Pessoas em quem eu confio e gosto de conversar. Mesmo assim, demorei um bom tempo para conseguir me abrir. Imagina se eles fossem pessoas conservadoras, preconceituosas? Demoraria muito mais pra falar, isso se eu tivesse coragem. Tenho uma amiga que conseguiu. Contou para pessoas que faziam piadinhas e diziam ter “nojo” de beijar alguém do mesmo sexo. Quando ficaram sabendo que uma pessoa próxima era homossexual, houve uma mudança de comportamento. Essas pessoas passaram a respeitar. Talvez essa seja uma forma interessante de pensar. Muitas pessoas respeitam mais quando descobrem que um amigo ou um ente querido faz parte desse grupo. Infelizmente, isso também ainda não é uma regra. Que a mudança comece por nós.