TraicaoO romantismo me acompanha desde pequena. Mas ele vai e volta, dependendo de quem entra na minha vida. O meu primeiro beijo foi em um amiguinho da escola, que também morava no meu prédio. Lembro que os lábios dele encostaram no meu e a língua entrou meio de repente com gosto de bolacha Bono de chocolate. “É isso? Nos beijamos?”, perguntei a ele. E ele respondeu afirmativamente.

Repetimos a dose e entendi melhor. Dois dias depois, eu já tinha esperanças de engatar um namoro. Enquanto eu olhava pra ele com cara de boba, ele trocava olhares com uma amiga minha, encostando em sua perna. Achei que não era nada. Com 11 anos eu ainda não tinha a malícia de perceber que o meu “novo namoradinho” iria se interessar por outra tão rápido. Fiquei sabendo da boca dela. Ela também não sabia que ele havia se envolvido comigo. As duas ficaram perplexas e deram um fim. Foi quando soubemos que ele já estava “interessado” em outra amiga nossa.

Descobri cedo que se apaixonar era um grande risco. Por sorte, era algo bobo, que nem me tirou lágrimas, mas me deixou em alerta para as próximas relações.

Segundo especialistas, essa atitude masculina é “aprovada” pela sociedade. “Homem de verdade é garanhão, aquele que consegue todas”, repetem os machistas de plantão. “É mais fácil trair no Brasil e na América Latina, onde se lida com essa questão de um jeito diferente, de forma não tão condenável, especialmente no caso dos homens”, afirmou a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da USP, ao jornal O Globo.

Uma pesquisa realizada pelo instituto Tendências Digitales em 11 países da América Latina apontou que o Brasil apresenta os maiores índices de infidelidade e disfunções sexuais. Entre os homens, o percentual é de 70,6%, contra 56,4% das mulheres. Apenas 36,3% afirmaram nunca ter traído os parceiros.

Além da questão cultural, da rotina do casal e da independência financeira da mulher evidenciadas na pesquisa, acredito que esse alto índice de traições também esteja associado às mentiras. As pessoas não mentem apenas para os seus parceiros, mas para elas mesmas. Elas mentem, porque não conseguem mudar de vida, não conseguem viver algo novo. A família vai implicar, os filhos vão reclamar, a sogra vai maldizer. Não digo que é fácil toda essa mudança. Sair de uma casa já montada e abrir mão de um relacionamento de anos é uma importante e difícil decisão. Mas se já não há mais felicidade, o que fazer?

No caso dos leitores do blog, o caso é ainda mais complicado. A maioria se vê em uma situação totalmente nova. Começam a gostar de alguém do mesmo sexo e resistem o quanto podem. “Como eu pude me apaixonar por uma mulher? Isso nunca me aconteceu”, é o que muitas leitoras confidenciam.

Não estou condenando quem trai, até porque há grandes chances de a maioria das pessoas por aqui já ter feito isso, considerando a pesquisa acima.

Mas acho que devemos repensar as nossas relações. Precisamos ser mais sinceros e verdadeiros. Quer viver algo diferente? Termine ou (se for o caso) converse com seu parceiro. Tudo é uma questão de estabelecer “regras” e limites.

O que não podemos é aumentar o percentual de casamentos infelizes – que já chegou a 80%. “Não consigo acreditar que quem está nascendo agora vai ter, daqui a 30, 40 anos, casamentos do jeito que eles são hoje”, afirmou a psicanalista Regina Navarro à revista TMP (vale muito a pena ler a entrevista). “Esse modelo de casamento que está aí é um horror”, completou ela.

Acho que para muitos pode ser mesmo um horror, mas para alguns dá muito certo. Cada um precisa encontrar a sua maneira de ser feliz – de verdade, sem se preocupar com a sociedade.