imageQuando aceitei minha bissexualidade, passei a observar mais as declarações e o comportamento das pessoas. Em grandes grupos, poucos conseguem afirmar que se envolveriam com alguém do mesmo sexo.

Mas em uma conversa mais íntima, em que aquela pessoa não está tão exposta, a verdade acaba aparecendo. Nem todas as pessoas, porém, conseguem externar esse sentimento. Eu, sinceramente, achei que o guardaria a vida toda. Se alguns acontecimentos não tivessem me levado a me envolver com uma mulher, talvez eu nunca tivesse dado o meu primeiro passo.

Eu negava o meu interesse por mulheres para todas as pessoas. Por mais que meus pensamentos e sonhos continuassem me levando por esse caminho, eu tentava bloqueá-los de muitas formas. O que me “salvava” era o meu interesse por homens. Então me focava apenas nisso, esquecendo parte da minha identidade.

Recebo muitos relatos de homens e mulheres com esse mesmo sentimento. Alguns e-mails são de pessoas que nunca falaram com absolutamente ninguém sobre o assunto. “Você é a primeira pessoa a quem conto a verdade”.

As pessoas ainda têm vergonha de falar sobre a sexualidade. Há alguns dias, minha namorada retornou uma ligação minha no trabalho. Nos falamos normalmente, mas à noite ela me pediu desculpas por ter feito isso. Não havia motivo algum para ela me pedir desculpas, mas de alguma forma, ela achou que ligar no meu trabalho poderia ser um problema para mim, principalmente porque nem todos sabem que namoro uma mulher.

Vivemos nos escondendo por medo do que os outros vão achar. Perdemos grandes oportunidades para continuar fingindo que a heterossexualidade é o único caminho da normalidade.

Nunca esqueço de uma cena que reflete muito bem minhas últimas afirmações. Havia um homem no meu círculo de conhecidos com fama de garanhão. Ele era aclamado pelos demais por conquistar as garotas ao redor. Certo dia, quando eu estava em um ambiente GLS, o vi beijando um homem. Quando ele percebeu minha presença, ficou lívido, visivelmente desconfortável. Perguntou o que eu estava fazendo ali e tentou puxar outros assuntos. Mostrei a ele naturalidade, o cumprimentei e saí de perto. Suspeito que ele tenha ficado feliz em me ver distante, mas fiquei triste ao vê-lo tão mal.

Essas situações me fizeram perceber que muitas palavras e atitudes valem muito menos do que eu imaginava. Por mais que julguemos que sim, a maioria das pessoas ainda não está preparada para combater a cultura moralista instaurada nos últimos séculos. Por enquanto, o meu silêncio para alguns, também me faz ser uma delas.

E vocês, já conseguiram contar para alguém o que realmente sentem? E quem consegue lidar com isso com naturalidade, pode contar a respeito?