mulher-no-futebolEnquanto eu chutava a bola, fingia não ouvir as meninas gritando “sapatão, sapatão”. Irritada, ainda mostrava o dedo do meio, batia no peito, chamava pra briga. Elas continuavam tirando sarro.

Olhava no espelho e não entendia por que não era igual às outras. Troquei os vestidinhos pelos bermudões e camisetas largas; as bonecas pela bola de futebol. Só descobri que havia um padrão quando olhei para as outras e me vi sozinha, rodeada de meninos. Eu era a única mulher no meio deles.

Lembrei de mim quando há alguns meses um garoto mudou de colégio depois de ter sido chamado pela professora de Félix (o personagem gay da novela das 8, da Rede Globo). A vida do garoto se tornou um inferno quando os amiguinhos não o deixaram em paz com a história.

Poucas crianças conseguem lidar bem com a sexualidade. Além de não entenderem o porquê de serem do jeito que são, dificilmente têm o apoio de alguém. É um mundo solitário, triste, de humilhação diária.

Minha mãe tentou me tirar desse mundo quando eu tinha meus 11 anos. Fui proibida de brincar com os garotos do meu prédio. Minhas amizades passaram a ser apenas as meninas do colégio. Os bermudões foram trocados por blusas e calças mais justas. O cabelo ganhou melhor trato, ingressei no mundo feminino. Mas algo dentro de mim ainda remetia àquela garotinha moleca, algo ainda não se encaixava.

Às vezes eu olhava mulheres na rua e sentia uma sensação diferente. Mas ninguém falava sobre isso na escola, nem em qualquer outro lugar. Eu me sentia mal em ter aqueles sentimentos.

Entrei na faculdade e os papos mudaram. Fiquei tanto tempo sem falar da vontade de beijar uma mulher que levei um susto quando as meninas começaram a falar sobre o assunto abertamente. Elas me perguntavam se existia esse desejo, mas eu não conseguia externá-lo. Não saía, eu não conseguia falar. Estava lá o tempo todo e eu deixei escondido, no fundo do armário. Achei que nunca falaria sobre o assunto com ninguém.

Eu namorava um homem há muitos anos, então não sentia mais essa necessidade. Por que mexer em algo que estava bom? Fui conhecendo mais pessoas que falavam abertamente sobre o assunto…todas elas querendo resgatar aquela garotinha que ingenuamente já mostrava que era diferente. Mas eu não queria deixá-la sair de novo. Fazê-la sofrer outra vez. Não queria ouvir vozes gritando “sapatão, sapatão”. Queria continuar sendo uma nova mulher feminina, bem-sucedida e que tinha um namoro heterossexual de dar inveja. Eu o amava de verdade.

Mas o amor acabou. Não por isso, mas por muitas outras coisas. E aquela garotinha começou a querer sair. Ela já não tinha mais tanto medo. Descobriu que nem em todos os lugares seria alvo de preconceito. E ela finalmente saiu. Não com bermudão, mas com o desejo escancarado de beijar uma mulher. E ela beijou. E descobriu tudo o que aquela garotinha poderia ter descoberto antes se as pessoas ao seu redor também falassem sobre o assunto abertamente.

Hoje a garotinha aparece em bares GLS, na casa de amigos e de familiares ao lado de outra garotinha. Mas ela volta a desaparecer no trabalho e em lugares públicos. Ela só consegue sair quando se sente segura – apesar de ter crescido, o medo continua ali.

E ela sabe que há milhões de outras garotinhas e garotinhos escondidos em outros adultos por aí. Com medo de sair e de se deparar com a dura realidade. Enquanto muitos de nós ainda não têm coragem de enfrentar o preconceito que nos espera, a melhor coisa é começar a sair aos poucos, em lugares seguros, até conseguir se libertar de verdade.

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