esconderLevanto a bandeira da sexualidade a todo o momento, defendendo gays, bis, trans ou seja lá o que for. Faço isso com uma vontade que você desacreditaria.

Todas as pessoas à minha volta me conhecem assim: a garota que rebate qualquer piadinha homofóbica prontamente. Uns acham graça, outros até exagero. “Nem uma piadinha, Amanda? Relaxa um pouco”.

Mas eu não relaxo. Não relaxo porque justamente por conta dessas piadinhas é que eles não sabem o fato mais importante sobre mim: sou bissexual e casada com uma mulher. Moramos juntas há mais de dois anos.

O meu desconforto com essa exposição é maior do que a liberdade de poder falar abertamente sobre o assunto. Mesmo no dia em que eu aguardava com meus amigos o beijo entre dois personagens gays de uma novela, acabei sendo, novamente, refém da minha hipocrisia.

Todos na casa sabiam que a mulher ao meu lado era minha esposa, com exceção de um casal que não víamos há bastante tempo.

Enquanto eles não chegavam estávamos abraçadas, como um casal deve ficar. A porta abriu com a chegada dos dois convidados e ela disse que mudei completamente. Inconscientemente afastei as mãos, mudei a voz, o jeito de tratá-la. Nem tinha me dado conta que eu estava mais uma vez seguindo um protocolo que já não nos faz mais sentido.

Com razão, ela fechou a cara na hora. E eu percebi o quanto aquela atitude era automática pra mim. E o quanto nos era custoso, desconfortável, massacrante. São mais de três anos de relacionamento – todos eles passados sem dar as mãos nas ruas. Agora começamos a trocar beijos em alguns bares “heterossexuais”, antes eram apenas os bares gays que os presenciavam. É uma guerra interna em que apenas eu estou perdendo.

Naquele ambiente fraternal não haveria nenhum risco de agressão física, nem moral. E mesmo assim meu piloto automático me fez seguir o caminho mais fácil: o de não me expor.

Achamos um ambiente favorável para uma conversa particular e minha esposa fez com que eu percebesse minha atitude. Eu estava mais uma vez me rendendo à minha própria insegurança.

Resolvi dar um basta nela (na insegurança, claro). Naquela noite, todos viram o quanto estávamos apaixonadas. A festa continuou normalmente, sem surpresas ou perguntas indiscretas. Não precisamos explicar nada a ninguém. E não nos desgrudamos mais.