Felix_Niko

As 12 pessoas reunidas na sala gritaram, aplaudiram, vibraram. Minha amiga teve de conter o choro da filha de quase três anos, que se assustou com a nossa festa. A comemoração com meus amigos era melhor do que qualquer gol de Copa do Mundo. Era a conquista do início de uma grande mudança.

O beijo gay masculino no horário nobre da TV Globo finalmente havia acontecido. Quase ninguém lembrava que mulheres já haviam se beijado na mesma emissora ou que dois homens já enceraram um beijo em uma novela da extinta Manchete, em 1990. Ou de qualquer outro beijo homossexual que já tenha sido televisionado.

A cena final do pai preconceituoso, dizendo que amava o filho, reforçou a mensagem. Estamos entrando em uma era de mais amor e compreensão, mesmo ainda diante de tantas agressões. 

Li na web diversos comentários reducionistas, indicando que o beijo gay em nada mudaria a sociedade brasileira. E quem disse que essa seria uma mudança imediata? O importante é ela ter começado.

A homossexualidade foi convidada a participar da cena popular, em uma emissora que atinge praticamente todos os cantos do país. Ela não precisa mais ser engolida a seco em uma cena de abraço que pede um beijo. Um beijo que poderia nunca ter acontecido. E que continuaria no sonho de muitas pessoas.

Um beijo que muita gente quer e não tem. Por medo, preconceito, religião, ignorância, família, sociedade, trabalho. Eu poderia elencar milhões de obstáculos e ainda assim poderia não citar o seu. Há tantas particularidades na nossa sexualidade que é impossível generalizar.

Reproduzo aqui um trecho que me emocionou muito no blog da Malu Giorgi, militante da causa gay. Ela recebeu essa mensagem de um menino que não era aceito pela família:

“…estavam todos na sala… eu no sofá quando o Felix beijou o carneirinho… Silêncio… Fiquei quieto também pra não dar motivos, embora estivesse fazendo a drag por dentro… Mas a cena final, do Felix e do César, eu não aguentei, veio um choro descontrolado que estava preso esses quatro anos que não falamos direito.., estava total descontrole… dai veio minha mãe com a cara  inchada de chorar me abraçar e meu pai do outro lado segurou minha mão e pôs a mão em volta do meu ombro… Não falamos nada! Na hora de dormir, o Felipe (irmão) entrou no quarto, deu a mão e quando eu ia apenas apertar, ele me puxou, deu um abraço e disse que ele sempre vai ser meu irmão. E chorei de novo… Pela primeira vez não dormi no inferno…”

Um beijo realmente pode mudar muita coisa, mas não tudo. Ainda há muitos beijos pela frente.