Paula* é casada com um homem há mais de 10 anos. Há meses se deu conta de que não o ama mais e pensa em dar vazão a um desejo escondido há muito tempo: beijar uma mulher.

A vontade existia desde a adolescência, só faltava coragem. O fato de também se interessar por homens acabou ajudando no desejo dos pais. Casar e ter filhos. Fez tudo o que uma “mulher de família” poderia fazer. Não viveu uma mentira, ela realmente amou o marido. Mas o amor acabou e ela quer experimentar o desejo antigo de estar com alguém do mesmo sexo.

Diz que vai terminar o casamento, mas a coragem continua ausente. Não há motivos para julgá-la. Quem já casou sabe o quanto é difícil uma separação, ainda mais com filhos, ainda mais quando o próximo passo é se envolver com uma mulher e, quem sabe, se apaixonar?

O caso de Paula não é único. Diariamente, mulheres casadas, noivas ou com namorados me escrevem contando casos similares. Há quem esteja em um relacionamento apenas por aparência. Ou quem tenha descoberto o primeiro amor em uma mulher. Outras estão confusas porque não queriam sentir atração por homens e mulheres (ou apenas por mulheres). E muitas delas nunca falaram com ninguém sobre esse desejo. Com ninguém. Elas não conseguiram se abrir nem com a melhor amiga. Para entenderem o nível da situação, há mulheres que conseguiram escrever suas histórias só depois de um ano lendo o BlogSoubi. Elas não conseguiam nem escrever o que sentiam.

É difícil escrever, é difícil falar. Namorei homens e sempre tive desejo por mulheres, mas antes dos 25 anos nunca havia externado isso. Achei que guardaria esse segredo pelo resto da minha vida. Mas o meu namoro de longa data terminou e tive coragem para tentar. Fui tão além que hoje, aos 28 anos, sou casada com uma mulher.

Não foi fácil assumir esse sentimento dentro de mim. Foi um processo. É um processo. Ainda não falo sobre o assunto com todo mundo, apenas com quem confio. Estou vencendo isso aos poucos. O meu lema sempre foi não querer me expor. Muitas lésbicas e bissexuais têm o mesmo lema. Dia desses, uma delas me disse: “Se fossemos heterossexuais, sairíamos por aí dizendo isso?”. Não, não sairíamos. Mas também não teríamos o menor problema em dizer que somos casadas com um homem. Algum heterossexual esconde que é casado para não expor a intimidade?

Sabemos que não se trata apenas disso. Há o preconceito que poderá existir no âmbito corporativo. Há o medo de andar nas ruas e ser morto apenas por estar de mãos dadas com alguém do mesmo sexo. Há países em que você poderia ser presa. Há, muitas vezes, a pressão da família para não seguir adiante. Amigos podem deixar de ser “amigos”. E muita mulher pode pensar que você está dando em cima dela apenas por dizer oi – sim, tem gente que pensa desse jeito.

Respeite o seu processo de aceitação, mas não deixe que ele a limite a viver o que realmente gostaria. O primeiro passo para se livrar do próprio preconceito é conseguir falar com alguém sobre o assunto. É mais libertador do que você possa imaginar.

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