Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Há ! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas..

Mario Quintana

Cansado de tantas fofocas a seu respeito, o presidente de uma grande empresa decidiu pôr fim ao falatório. Era a reunião para divulgar os resultados do trimestre, o auditório estava abarrotado de funcionários. Depois de vomitar números, fez uma pausa rápida e falou com segurança:

“Fui casado com minha esposa durante anos, tenho três filhos e, sim, é verdade, agora moro com um homem. Agora podem parar de fofocar sobre o assunto”.

A história verídica é um exemplo interessante de como lidar com os rumores sobre a sexualidade de uma pessoa. Mas, não, você não precisa anunciar a sua sexualidade dessa forma.

Tenho recebido muitos questionamentos de leitores aflitos com essa questão. Como conto para a minha família? Devo falar no trabalho? Digo ao meu namorado?

A melhor resposta seria: “Não há o que esconder e isso é completamente natural. Conte para todo mundo, claro”. Mas no país que lidera o ranking mundial de violência contra homossexuais, o diálogo não é tão simples assim.

O BlogSouBi já recebeu relatos diversos sobre o tema. Uma adolescente decidiu contar para os pais que estava apaixonada por uma garota. Apanhou e foi proibida de sair. O pai de outra jovem ameaçou não pagar mais a faculdade se ela não parasse de se relacionar com uma mulher. Um homem perdeu a namorada depois de contar que já havia se relacionado com homens. Ele dizia amá-la de verdade, não estava no relacionamento por conveniência. Ela não acreditou. Outra leitora contou que foi demitida recentemente do trabalho ao descobrirem que ela era lésbica.

Todos os casos são tristes e alguns dignos de processo judicial. Eles retratam um país que ainda tem muito a aprender em relação a respeito e diversidade.

Nem por isso, a melhor resposta é esconder os seus verdadeiros sentimentos. Mas talvez seja saber o momento ideal para tratar do assunto ou tentar encarar que as pessoas ou os lugares não são “adequados” para você.

Se os seus pais são preconceituosos, espere até conseguir independência financeira para contar e lidar ou não com uma rejeição. Na verdade, todos os pais deveriam se conscientizar e não punir os filhos por algo que (já sabe sabe muito bem) não é uma escolha. Infelizmente a realidade é outra. Se a sua namorada não consegue entender que você é bissexual e não acredita no seu sentimento por ela (desde que seja verdadeiro, claro), talvez ela não seja a parceria ideal.

Se a sua empresa o demitiu ao descobrir a sua sexualidade, certamente você encontrará uma empresa que lhe dará até benefícios por ser casado com alguém do mesmo sexo. Há relatos interessantes de pessoas que tiveram uma melhora no desempenho profissional ao confidenciar a sexualidade. No banco HSBC, por exemplo, o reconhecimento da união estável permite compor renda para contratar financiamento imobiliário, além de incluir o companheiro ou a companheira no plano de saúde, no seguro de vida e na assistência odontológica, segundo reportagem do UOL.

Independentemente das consequências e dos benefícios que a sua “confissão” possa trazer, siga o seu próprio ritmo. Não ceda a pressões e diga quando se sentir confortável ou quando (e se) achar necessário. Se ainda está na dúvida, fique tranquilo. Como bem disse o pintor italiano Leonardo da Vinci, todo o nosso conhecimento se inicia com sentimentos.