O beijo lésbico é um grande fetiche. Ver duas mulheres se beijando é o auge do erotismo para muitos homens. Para concretizar o desejo, alguns conseguem convencer a esposa a embarcar no ménage à trois. Outros deixam as parceiras se relacionarem com a ala feminina sem a necessidade de estarem presentes.

Esses homens não enxergam como traição a relação de suas esposas com outras mulheres. Os amigos até batem nas costas com inveja. “Quem dera minha esposa também fizesse isso”. Se ela contar que se relacionou com uma mulher no intervalo do almoço do trabalho, não haverá problemas. Não há ameaça – ou pelo menos, é o que eles imaginam.

Se não há um homem envolvido, não há concorrência. Perder para um homem seria humilhante. Se é mulher, ganha pontos. O problema é não considerar traição com uma mulher e considerar com um homem. É uma maneira machista de enxergar a situação. 

Muitas mulheres enxergam sob a mesma ótica machista. Algumas beijam outras mulheres apenas para agradar os homens e não porque realmente queiram estar (pelo menos naquele momento) na situação. 

Confesso que já fui uma mulher machista de certa maneira. Eu também acreditava que se estivesse com um homem e beijasse uma mulher, não seria traição. Esse tipo de relação não afetaria a masculinidade dos meus parceiros.

Pense que estamos sempre enxergando sob a ótica masculina. Não acreditamos ser traição, porque o homem não tem o ego ferido. Logo, essa relação se torna praticamente insignificante, é apenas uma resposta para um desejo repentino.

Até acredito que muitas mulheres não consigam se relacionar com outras afetivamente, como já aconteceu comigo (no passado, vale reforçar) e com tantas outras. Mas acredito ainda mais que talvez isso seja um misto de machismo, preconceito e bloqueio. É mais fácil acreditar que não existe ameaça e que é só curtição – e isso vale tanto para a mulher, quanto para o homem.

Começar a valorizar a relação entre pessoas do mesmo sexo como uma possibilidade de um desenvolvimento afetivo, é começar a entender (de verdade) a sexualidade.

Mas não interpretem de maneira errônea. Não quero dizer que sempre há necessidade de envolvimento afetivo e sim possibilidade. Obviamente muitas relações vão envolver apenas o prazer. Só não podemos ignorar que existe sim a possibilidade de envolvimento afetivo, independentemente do sexo.

Um leitor me disse recentemente que era casado, amava a mulher, mas sentia falta de uma companhia masculina. Apesar do amor pela esposa, ele disse que nenhuma mulher conseguia completá-lo. Ele frisou que os homens estavam relacionados ao prazer.

Em entrevista à revista TPM, a psicanalista Regina Navarro defende que amor é uma coisa, sexo é outra. “As pessoas precisam parar de acreditar em fidelidade e amor romântico. Dentro de 30 anos, o sexo será mais livre. A bissexualidade é uma tendência”. Para Regina, outra tendência é que exista um amor não calcado na idealização.

A teoria faz sentido, considerando que recebo muitos e-mails de pessoas casadas contando de relações extraconjugais. Mas ela não se aplica a todos. Acredito no amor romântico e na monogamia, apesar de respeitar qualquer outro tipo de relação.

Se há acordo não é traição. Mas o acordo deve servir para ambos os sexos. Afinal, se é apenas um desejo, porque o seu marido não lhe deixaria realizar também com o sexo oposto?

E não para por aí. Muitas mulheres, como vejo aqui no BlogSouBi, não estão apenas respondendo a um desejo físico. Elas se apaixonaram por suas parceiras de “curtição”, mas têm medo de deixar os homens por insegurança.

Provavelmente, muitas dessas situações se manterão por anos. Os maridos aceitando a relação de suas esposas com outras mulheres, acreditando ser apenas um desejo sexual. São traídos pelo machismo.