Quando eu era adolescente, tinha muitos desejos, mas os reprimia. Por medo, por desconhecimento, por achar que estava confundindo as coisas. Imaginar que poderia estar interessada em uma mulher me causava estranheza.

Muitos jovens que acessam o BlogSouBi dizem estar confusos e não sabem exatamente o que são. O que sempre digo é que muitos adultos também não sabem. O ponto positivo é que esse jovens estão provavelmente um passo à frente. Eles começaram a refletir mais cedo sobre a questão, a buscar mais conhecimento sobre o assunto e a procurar pessoas que passam pela mesma situação. 

Uma das melhores maneiras de lidar com conflitos internos é conversar com pessoas que tenham sentimentos similares. Caio*, um dos leitores do BlogSouBi, enviou um e-mail dizendo ter observado comentários de muitos garotos no blog. Pediu que eu escrevesse a respeito e compartilhasse com todos questões que possam ajudar nessa fase de descoberta da sexualidade.

Caio começa contando de suas recordações de infância. “Nas primeiras lembranças de minha vida, lembro de brincar com um amigo e ter atração por ele, entre quatro e seis anos. Entretanto, apenas me entendi e me aceitei como bissexual há menos de um ano. Hoje tenho 23″. 

Ele descreve que passou por várias fases de descoberta e as elenca:

Desentendimento
Tinha contatos mais íntimos com outros garotos sem me importar com nada, apenas sabendo que meus pais não poderiam saber. Era infantil demais para entender as questões sociais por trás do que eu fazia.

Julgamento
Comecei a perceber que para a sociedade essa era uma visão errada. Mesmo sabendo que era algo inocente, eu sabia que poderia ser julgado. Fiquei triste ao descobrir que muitos achavam errado ter atração por alguém do mesmo sexo.

Negação
Eu fugia de qualquer contato com outros caras para evitar cair em tentação. Acreditava que esses “desejos” sumiriam com o tempo. Foram seis anos na fase da negação. Ainda me sentia errado, mas pelo menos não fazia nada.

Curiosidade
Foi um jeito fácil de sair da fase de negação. Por que não experimentar por curiosidade? Comecei a ter relações com outros homens com menos frequência e me escondia atrás da ideia de “é apenas algo passageiro, até achar uma garota para namorar”. Comecei a ler muita literatura sobre sociologia e psicologia na faculdade e a fazer uma série de questionamentos.

Aceitação
O conhecimento que adquiri na universidade me fez chegar à fase da aceitação. Comecei a refletir mais sobre os meus desejos e percebi que realmente era bissexual. Apesar de estar nessa fase, ainda tenho minhas recaídas. Às vezes ainda julgo que estou errado e me arrependo depois de fazer algo com um homem. Mas ao menos aceitei que isso é algo meu, faz parte de mim e por mais que eu tente, não vou conseguir deixar de sentir o que sinto.

Como saber se você é homossexual ou bissexual?
Na visão de Caio, os garotos mais novos se auto-afirmam bissexuais ou homossexuais muito rapidamente. Apenas por que tiveram algum interesse no amigo ou por terem tido alguma relação pontual. Ou simplesmente por acharem um garoto bonito. ”Sou prova de que a bissexualidade pode ser algo que vem da infância, porém não acredito que esse seja o caso de todos. Conheço alguns homens que tiveram relações com amigos na infância, mas isso não significou nada além de um momento ou uma descoberta”.

Caio diz não esperar que todas as pessoas passem por essas fases. Mesmo por que cada um pode ter uma fase diferente e até pular algumas etapas desse processo, que é muito individual. “Sei que não posso generalizar, mas acho que muitos se precipitam ao se rotular de acordo com o que a sociedade criou como ‘categorias’”. Segundo ele, essas categorias servem apenas para segregar, ou seja, criar grupos superiores a outros. Pode fazer sentido, dado que o grupo LGBT é considerado minoria.

A criação de rótulos pode realmente nos deixar confusos. Ela casou com um homem, mas não era lésbica? Ele teve relações como um homem e agora é casado com uma mulher? São esses julgamentos que interferem muitas vezes na simples vontade de experimentar.

O que Caio tenta explanar é que não podemos (e nem precisamos) nos prender a uma experiência. Se você experimentou e gostou e acha que vai continuar gostando, ótimo. Continue nessa. Se você provou, não gostou, passou a preferir outra coisa e depois quis provar de novo, ótimo. Se apaixone, case, more junto, tenha filhos, adote, ame.

Os nossos desejos podem mudar com o tempo. As nossas convicções, as nossas crenças. A visão política, o tipo de chocolate, o melhor país para morar ou o melhor estilo de vida. Tenha como regra apenas respeitar o outro e como lema seguir o seu coração. Somos seres mutáveis. E esse é a graça de tudo. Mas se você não acha graça, continue sem ela.

*Caio é um nome fictício