A cultura que menospreza a homossexualidade transforma os verdadeiros desejos em angústia. Se percebo estar interessada em alguém do mesmo sexo, logo rejeito. Afinal, esse sentimento é “errado” aos olhos da sociedade. 

Os questionamentos dos leitores do BlogSouBi são muito similares nesse sentido. É muito comum uma mulher relatar o interesse em outra mulher e me perguntar: será que sou lésbica ou bissexual? Estou realmente interessada nessa mulher ou é apenas uma curiosidade?

 As pessoas contam sobre a troca de olhares, a vontade de beijar e estar junto, mas rejeitam a ideia de estarem apaixonadas por alguém do mesmo sexo. Há ainda aquelas ou aqueles que já estão em um relacionamento homossexual e ainda se questionam se é algo passageiro. Claro que pode ser passageiro, assim como um relacionamento com alguém de gênero distinto. 

O que digo para a maioria dessas pessoas? Se a mesma situação estivesse acontecendo com alguém do sexo oposto, qual seria a sua avaliação sobre os seus sentimentos? Você negaria a ideia de estar apaixonada?

É fato que a ideia da atração pelo mesmo sexo é rejeitada por uma questão cultural e muitas vezes religiosa. A dúvida que habita grande parte dessas pessoas não existiria se a homossexualidade já fosse encarada de forma natural pelo brasileiro (como acontece em outras culturas e já aconteceu em povos antigos).

A heterossexualidade se tornou o padrão, o exemplo a ser seguido. Mas um aprofundamento em história da humanidade e uma reflexão sobre os povos nos mostra que esse não é o único caminho. Se é que podemos chamar a identidade sexual de caminho.

Se você enfrenta um turbilhão de sentimentos incompreensíveis no momento, não fique angustiada. Como já disse neste outro post, o problema está em querermos nos rotular. Reforço: são os rótulos que nos aprisionam. O desejo humano é surpreendente e pode nos relevar uma outra identidade sexual que nunca imaginaríamos em outras épocas de nossas vidas. Há mulheres que me dizem: nunca havia me atraído por outra mulher, o que aconteceu? Por que esse sentimento surgiu?

Há questões muito particulares para nos interessarmos por alguém e não necessariamente o gênero é uma restrição. A atração pode começar pela beleza, pelo jeito, pelo olhar, pela forma de andar, pelo cheiro. São tantas variáveis que poderíamos ficar horas discutindo o assunto. Quantas vezes você já não se viu apaixonado por alguém que “não fazia o seu tipo” ou que você conhecia há muitos anos e de repente começou a olhar diferente?

Paro para refletir por quanto tempo estive presa às visões equivocadas desta sociedade moderna. Por quanto tempo entendi que tinha também um desejo por mulheres e guardei esse sentimento para ser aceita. A libertação nos ajuda a amadurecer e nos mostra o quanto podemos ser fortes para enfrentar a ignorância que ainda persiste. Se seremos julgados por isso? É claro que sim, afinal estamos contra um pensamento vigente. Sabiamente, Madre Teresa de Calcutá, já nos dizia algo sobre o sentimento de culpa que poderia surgir dentro de nós: “Quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las”.