Um em cada 100 adultos é assexual, ou seja, não tem nenhum interesse em sexo, revelou um estudo do psicólogo e especialista em sexualidade Anthony Bogaert, da Universidade Brock, no Canadá, divulgado em agosto de 2004 pelo Journal of Sex Research. O biólogo Alfred Kinsey já havia apontado a mesma estatística em estudos feitos entre 1948 e 1953.

Se considerarmos, portanto, que 1% da população mundial pode ser assexual, estamos falando de 70 milhões de pessoas atualmente. É muita gente sendo deixada de lado. São pessoas “invisíveis”, que não podem falar abertamente sobre a ausência de desejo, porque estamos na era do “você precisa fazer sexo para ser saudável e feliz”. Há ainda os arromânticos, que não têm lugar nem no dicionário [se alguém encontrar em algum, me avise]. São pessoas que não se apaixonam.

Conheci, por meio do BlogSouBi, dois assexuais e arromânticos. Eles concederam uma entrevista para contar como se descobriram e como se sentem em relação à sexualidade. Wagner e “L” têm ausência da paixão e do desejo sexual e levantam uma questão interessante: os assexuais e arromânticos são felizes sem amor e sexo.

BlogSouBi – Quando vocês descobriram que eram assexuais e arromânticos?

L - Descobri ano passado, há oito meses. Na época, estava totalmente perdido, então me recordei de uma conversa que tive com um amigo. Ele dizia que fulano era gay pelo jeito dele, então eu disse que não necessariamente, ele poderia não se relacionar, porque talvez não quisesse. Então ele riu e disse: ele é assexual, que não corta pra nenhum lado. Fui então pesquisar, por curiosidade, o que isso significava. Encontrei o Fórum Assexual e fiquei muito impressionado com as histórias daquelas pessoas, elas se sentiam como eu. Comecei a ler reportagens e vi entrevista com a pesquisadora Elisabete Oliveira, no programa Gabi Quase Proibida. Então percebi que eu era assexual e arromântico.

Wagner (Wokgran) - Me descobri assim, com essas palavras específicas, em março do ano passado, mas já tinha notado a minha diferença em relação às outras pessoas aos seis anos de idade. Contudo, também tive grande influência da minha vó, que foi quem mais me criou e também constantemente me falava sobre beijos serem nojentos. É complicado dizer quando tudo começou exatamente. Durante o início da puberdade, novamente diferenças foram colocadas entre mim e os outros, que pareciam demasiadamente fascinados e tarados com revistas, canais e qualquer coisa que lembrasse remotamente um órgão reprodutor, ora que eu em muitos casos nem conseguia sequer entender a piada, não tinha muito interesse e ainda censurava os livros de biologia, pois considerava aquilo tudo impróprio. Já durante o ensino médio, ainda sem nunca ter beijado ou namorado ninguém, meu desinteresse natural pelo assunto se tornava a cada ano mais notório e, ao acumular uma série de problemas pessoais que incluíam zombaria por nunca ter me relacionado, senti atração estética por uma garota, mas mesmo tentando me aproximar dela, com grande dificuldade devido ao meu desgosto com atos tipicamente românticos, era impossível passar de abraços, pois esses já eram sem emoção e sem vontade, incômodos e indesejados tanto pela minha mente quanto o meu corpo. Como nunca senti nenhum tipo de atração por homens, as hipóteses de ser homossexual ou romântico homoafetivo também nunca pareceram uma opção.

BlogSouBi - Como a pessoa pode ter certeza se é assexual ou se está apenas com algum bloqueio em relação ao sexo?

L -  O assexual não tem interesse sexual. Normalmente, a primeira coisa que costumamos pensar é “tenho algum problema”. No caso da pessoa com bloqueio, ela já sentiu o impulso e após superar o obstáculo, voltará a sentir, mas é sempre bom revisar essas coisas.

Wagner (Wokgran) - Provavelmente não há como ter certeza. Por mais que eu particularmente não tenha nenhum histórico relevante que aponte o contrário, o que eu costumo  pensar é que, uma pessoa que passou por situações não significantemente traumáticas, como estupro, mesmo tendo opiniões fortes contra o ato, como religião ou moral, ainda assim vai sentir vontade e impulsos para fazer sexo.  Já um assexual não sente o impulso mesmo sem saber de histórico traumático. E de qualquer forma, caçar por bloqueios mentais ou motivos para bloqueios mentais não faz a pessoa menos assexual, não invalida a situação atual daquela pessoa específica. Sexualidade é visto como algo fluído, existem poucos casos que já li em comunidades de pessoas assexuais eventualmente, muitos anos mais tarde, gerando interesses e impulsos sexuais. Tal como também já li do oposto, de muitos perderem seus impulsos ao atingir idades mais avançadas. É tudo uma questão muito complexa que de fato envolve tanto a questão biológica quanto a psicológica e social, não há como olhar para apenas um desses fatores buscando o “defeito”, não há defeito se a pessoa não se sente mal com aquela situação.

BlogSouBi – A incapacidade de se apaixonar, no caso dos arromânticos, não tem alguma interferência psicológica? Vocês já tentaram ir a fundo sobre esse assunto?

L - Fui criado desde os cinco anos com pessoas me ensinando a gostar de garotas. Aos 12, nada tinha mudado, mas notava que meus amigos já estavam ficando diferentes. Eles falavam muito sobre garotas, cantadas e sempre me questionavam a respeito. No começo, não sabia o que responder, mas com o tempo fui aprendendo a me comportar como eles, para passar despercebido. Eu já não sabia quem eu era. Com cada pessoa agia de uma forma, tudo para parecer “normal”, mas uma garota percebeu que nada daquilo era verdade, porque ela também estava passando por algo semelhante. Então começamos a conversar e com ela eu podia ser eu mesmo. Ela entendia o que eu sentia e eu não precisava mais mentir, nem fingir nada, era um alívio ser natural de vez em quando. Então, sempre que podíamos, estávamos juntos. Então todos começaram a achar que eu gostava dela. Mas depois de um tempo as cobranças pararam, saímos da escola e perdemos contato. Eu até cheguei a acreditar que era apaixonado por ela, simplesmente por gostar de estar junto. Ou apenas porque me diziam isso. Sempre pensei que fosse algum trauma, que eu tivesse medo de me apegar, que eu fosse frio. Eu tentei de tudo, tudo o que você pode imaginar e nada, absolutamente nada muda o que eu [não] sinto. Sempre foi péssimo ver todos com a fórmula mágica do prazer e felicidade, menos você. Você vê tudo em filmes, músicas, séries, teatros, conversas. Absolutamente todos sentiam essa força invisível que te faz sentir maravilhoso e eu não. Tentei me programar mentalmente pra sentir, via romances, admirava a beleza, tentava me sentir solitário para forçar o sentimento de amizade. Tentei isso tanto com mulher quanto com homem. Não adiantou. Não consigo sentir prazer nisso. Eu queria, queria mesmo saber como é isso, mas não acontece. Minha mãe achou que minha indiferença com garotas era por eu ser gay. Então ela me incentivava a ser e foi extremamente irritante. Mas depois percebi que ela só queria fazer eu me sentir bem.

Não sinto essa necessidade de intimidade e toques pessoais que os outros tanto sentem e que sempre me pareceu estranha

Wagner (Wokgran) - Fico um pouco na dúvida sobre o que seria tal “interferência psicológica”, mas assumindo que seja também o caso de assumir que arromânticos são assim por questões meramente psicológicas, acharia questionável. Eu particularmente vivi uma vida orientada a me tornar um verdadeiro inimigo do romance, pois era algo que eu, como expliquei no primeiro ponto, já tinha motivos para olhar com preconceito. Contudo, mesmo após passar anos sendo criado por outras pessoas que eram muito mais abertas e adoravam romance, eu sempre me senti em um déficit de explicações. Para mim era um ato irracional, essa vontade de se relacionar com outra pessoa, esse desejo. Para mim sempre pareceu senão um incômodo algo meramente sem sentido. Eu consigo me suportar sozinho muito bem, o que porventura precise, posso conversar com pessoas na internet ou convidar um amigo para conversar ou jogar um jogo online. Não sinto essa necessidade especial de intimidade e toques pessoais que os outros tanto sentem e que sempre me pareceu estranha, desnecessária e gerando gastos de tempo e dinheiro irracionais. Novamente, teria que “culpar” minha criação para assumir a hipótese de que a minha psicologia interfere na minha orientação romântica, mas então eu acabo por me perguntar porque isso não funciona para as outras pessoas que foram criadas no mesmo ambiente, ou sob ambientes similares. Suspeito muito que a biologia realmente pesa mais do que os aspectos psicológicos nesses casos. Mas sempre me questionei e questionei diversas pessoas sobre o porque deles serem tão centrados em romance, nunca obtendo respostas a meu ver satisfatórias ou lógicas, só fazem sentido se realmente jogarmos com um impulso e vontades que os outros tem e eu não tenho. Infelizmente não li tanto material sobre impulsos e vontades românticas quanto eu gostaria, até porque existe muito menos material sobre arromanticidade do que assexualidade, e não me agrada ler materiais onde sempre se vende o romance ou o sexo como a cura de todos os males falando implicitamente que aqueles que não sentem desejo são doentes ou dignos de pena.

Cuidado com pessoas que dão diagnósticos, elas não sentem o mesmo que você.

BlogSouBi – Descobrir ser assexual deve ser algo difícil. O que vocês recomendariam a outros assexuais?

L - Primeiro, tenha certeza disso. Revise sua vida. Você sentia impulso antes, vontade, ou foi algo repentino, por conta de problemas? Segundo, não acredite em esteriótipos, pense em você, há muitas funções no nosso organismo que ainda são os mesmos. Só você pode dizer se é mesmo assexual. Cuidado com pessoas que dão diagnósticos, elas não sentem o mesmo que você.

 

Wagner (Wokgran) - Se descobrir assexual não é tão complicado quanto parece, se houvesse maior visibilidade e divulgação do que é ser assexual, as pessoas iriam eventualmente descobrir a comunidade e ter em mãos todas as ferramentas para estudar as palavras e ver se elas se encaixam ou não. Boa parte da identificação advém do mero fato de interagir com outros assexuais, ler as histórias e se identificar com elas, pois todas as outras que sempre tinham menções a tais impulsos sexuais pareciam verdadeiramente alienígenas ou trabalhos de comédia exagerada. Não é incomum eu me surpreender com o quão nós na comunidade assexual pensamos de forma similar porém diferente de quase toda a sociedade.

BlogSouBi – Como foi o processo de aceitação de vocês?

L - Complicado, nunca aceitei totalmente, sempre acreditei que com determinação poderia qualquer coisa, que um dia eu ia sentir isso. Aceitar ser assexual foi mais fácil, o problema foi aceitar ser arromântico, mas já estou me aceitando melhor.

Wagner (Wokgran) - Inicialmente feliz e contente por finalmente ter achado o meu grupo. Contudo obviamente me questionei se eu realmente pertencia aquele grupo e se eu teria “direito” de me identificar daquela forma, logo passei as semanas subsequentes preocupado com tais questionamentos e comecei a ler ainda mais sobre o assunto. Encontrei a AVENwiki (Wikipédia da AVEN – Site internacional, fundador dos fóruns de assexualidade, criado por David Jay). Por não ter problemas com inglês, tive um largo material para digerir, muitas histórias para ler e estudar e analisar e me identificar. Depois comecei a interagir em comunidades, conversar com os usuários via chat e fazer minhas perguntas e publicações. Fui muito bem recebido e mesmo abrindo detalhes que antes todos apontavam como erros, pela primeira vez as pessoas viram como algo legal. Isso para mim foi e ainda é muito importante, mais do que os conceitos, ter essas visões compartilhadas e essa sensação de pertencer a um grupo de me identificar com eles e compartilhar histórias parecidas.

BlogSouBi – Vocês já se forçaram a fazer sexo? Qual foi a sensação? 

L - Eu nunca fiz e não tenho vontade. Às vezes tenho curiosidade de saber como eu reagiria, mas não tenho aquele impulso que me fala desejar isso e se não é por mim, por que eu faria? É algo como, você já se forçou a fazer sexo com animais, qual foi a sensação?

Wagner (Wokgran) -  Não, inclusive isso vai e sempre foi contra o que eu considero correto ou viável. Não quero ter filhos e portanto considero o ato sexual como apenas um potencial risco para isso ocorrer, mantendo toda distância possível disso, somado a minha falta de vontade e não gostar de toques físicos.

BlogSouBi – Vocês não querem e não sentem necessidade de fazer sexo com outras pessoas. Mas e a masturbação, que é algo íntimo e não exige o envolvimento físico, nem emocional com outro ser humano? 

L - A masturbação eu faço. Tem vantagens para a saúde, como liberação de hormônios. Quando trabalhava e ficava cansado, tinha pouco tempo para dormir. Eu chegava, jantava, tomava banho e ia dormir. A masturbação seria uma perda de tempo nesse caso, mas eu fazia quando estava estressado. Até consigo sentir prazer, mas não é nada de mais. Ajuda a dormir e a aliviar o estresse.

Wagner (Wokgran) -  Eu também faço. É até prazeroso, nada de outro mundo. Nada de tão especial quanto muitos alegam. Mas prazeroso o suficiente para justificar fazer em momentos de tédio. É importante ressaltar e diferenciar que um assexual é plenamente capaz de se excitar, mas existem exceções. Apenas não há um desejo maior ou impulso de fazer algo com aquilo, ainda mais com outra pessoa. Então dá para eventualmente achar linhas de pornografia ou leituras eróticas para causar a excitação necessária para fazer o ato. Já tentei ficar tempos sem isso, mas ocasiona poluções noturnas após alguns meses que são chatas e nojentas. Não vale a pena. No final das contas, não passa de uma massagem que você faz em você mesmo, não é? E de fato muitos assexuais fazem, alguns sentindo prazer, outros nem isso. Fazemos mais para dormir melhor, como é o meu caso.

BlogSouBi – Então o arromântico pode ter interesse sexual e o assexual pode se apaixonar. Se eles representam uma parcela tão pequena da população, como encontrar alguém para se relacionar?

L - No caso do arromântico sexual, ou seja, aquele que não se apaixona, mas tem interesse sexual, ele pode ser heterossexual, homossexual, bissexual ou pansexual. A única coisa que ele precisa é satisfazer o impulso sexual. Em relação aos assexuais que se apaixonam, já vi casos em que os casais fazem  acordos com os parceiros e eles se tornam celibatários. Às vezes o assexual cede e em outras vezes, eles optam por relacionamentos abertos, para que o parceiro possa satisfazer o impulso. Isso é particular de cada relação. Eles podem ser  heterorromânticos, homorromânticos, birromânticsos ou panrromânticos.

Wagner (Wokgran) - No meu caso, sendo assexual e arromântico, não pretendo formar relacionamentos além da amizade, logo isso não se mostra como um problema para o meu caso. Contudo, para outros, existem várias formas, como participar dos fóruns de assexualidade e conhecer pessoas por eles, participar dos chats e outros veículos, participar de clubes LGBTQ+ (ou GSM) quando existem na escola ou faculdade. Ir a encontros mensais de assexualidade que normalmente são organizados, aqui no Brasil, por estados. Ou meramente ir conhecendo pessoas, um assexual não precisa se relacionar estritamente com outro assexual, isso vai muito de cada um. Conheço várias histórias onde assexuais se casaram ou namoram com sexuais e o relacionamento dá certo, ou porque o sexual consegue deixar o sexo de lado, ou porque chegam a um acordo de quantas vezes vão fazer por mês e o assexual não tem repulsa, apenas indiferença, ao ato. Ou até acordos de relacionamentos abertos onde o sexual pode buscar o que quer fora daquele relacionamento. Isso realmente varia muito e, no final das contas, achar alguém compatível é sempre difícil.

BlogSouBi – A sociedade diz que precisamos de amor e sexo para ser felizes. Como é possível viver sem eles e quais são os seus prazeres?

L - Gosto de sair e conversar com meus amigos, jogar tênis, assistir filmes de comédia, ação ou ficção, ler determinados assuntos. Gosto de jogos e de experimentar comidas novas. Estava também pensando em começar a fazer exercícios físicos, deixar de ser sedentário. Não quero fazer por estética, mas sim por saúde.

Wagner (Wokgran) -   Em tese, nem deveria ser tão estranho para outras pessoas entenderem, quantos outros não dedicam suas vidas a carreira, hobbies e outras coisas? Por que tais pessoas são menos dignas do que aquelas que centram suas vidas em casamento, filhos, sexo e romance? Esse é o grande preconceito que a sociedade carrega com as pessoas que não seguem essa norma, acreditando que essas pessoas nunca serão capazes de atingir a “verdadeira felicidade”. Existem infinitas formas de entretenimento. Eu particularmente gasto meu tempo vendo episódios de anime [desenho animado japonês], interpretando e escutando músicas, falando com pessoas na internet, jogando diversos jogos e até inventando uma ou outra arte na cozinha. É realmente muito estranho imaginar que seja impossível viver sem amor e sexo, até por que muitas pessoas ficam sem tais elementos e ainda assim conseguem ser felizes. Ou por serem celibatários ou por não poderem fisicamente ou por que não têm tempo. Como disse [a psicóloga da saúde] Kelly McGonigal, o que mais nata no estresse é acreditar que ele faz mal. Eu diria que o que mais causa depressão e infelicidade em não fazer sexo ou não se relacionar é acreditar que os únicos caminhos para felicidade são esses.

ENTENDA
- Assexual e romântico: não tem interesse em sexo, mas se apaixona
- Sexual e arromântico: tem interesse sexual, mas não consegue se apaixonar
- Assexual e arromântico: não se apaixona, nem se interessa por sexo