Como é a convivência com sua mãe? Essa foi uma das perguntas que me fizeram para tentar entender a raiz da minha bissexualidade. A dúvida da leitora surgiu depois de ela ter lido um artigo que relatava a história de uma “ex-lésbica”. Ela dizia ter uma “fome profunda por amor feminino”, porque não teve amor materno na infância. Logo, a homossexualidade foi a maneira que ela diz ter encontrado para preencher o “vazio”.

Será que tudo isso faz sentido? Foi o que a leitora me perguntou. “Não tive amor materno e gosto de mulher. Conheço mulheres na mesma situação que eu”, contou. 

Essa crença deriva de uma visão psicológica reducionista e não é mais aceita pelos principais organismos mundiais de saúde mental, segundo o psicólogo Klecius Borges, especializado em terapia afirmativa para gays, lésbicas, bissexuais e seus familiares.  ”Não há dúvidas de que a dinâmica familiar influencia na sexualidade do indivíduo de forma mais ampla, mas não necessariamente determinando unilateralmente uma dada orientação sexual”, explica Borges.

Não é por conta da ausência de amor materno ou paterno que você se tornará gay, lésbica ou bissexual. Não há evidências, segundo Borges, de que as orientações  bissexual e homossexual sejam determinadas por apenas um fator. Tudo indica que essas orientações, assim como a heterossexual, sejam expressões naturais e espontâneas da variedade da sexualidade humana e podem se apresentar em diferentes graus e em diversas fases da vida na maioria da população.

Borges ainda faz um questionamento interessante. “Como explicaríamos o enorme número de casos de indivíduos heterossexuais criados por famílias uniparentais [que tem apenas a presença de um dos pais: apenas o pai ou a mãe educam a criança]?

Concordo que são muitos os fatores que nos fazem enxergar a homo ou bissexualidade. A minha experiência pessoal mostra que o meu desejo por mulheres ficou adormecido por mais de 20 anos por medo de vivenciar a situação. A demora foi ainda maior, porque o meu desejo por homens também era genuíno. Novas amizades, um ambiente com pessoas que refletiam sobre a sexualidade e o meu amadurecimento fizeram com que eu liberasse os meus sentimentos. 

Se eu inconscientemente tentava preencher um vazio deixado por minha mãe? De modo algum. Sempre me dei – e me dou – muito bem com minha mãe, que além de uma mãe maravilhosa, é uma grande amiga. Ela é uma das pessoas que mais apoia os meus projetos e a minha sexualidade. Para minha grande felicidade, ela não dá a mínima para o fato de ter uma nora e não um genro – ah, e ela também nunca achou estranho o fato de também já ter tido genros.

Borges diz, no entanto, que algumas situações específicas podem influenciar de forma mais incisiva uma orientação para um desejo homossexual, mas não é o que se observa na maior parte dos casos. Segundo a psicóloga Sandra Soares, não podemos generalizar. “Podemos ter algumas pistas para seguirmos alguns caminhos. Não é possível afirmar que toda mulher busca a mãe nas relações, assim como não é verdadeira a afirmação que algumas mulheres buscam o pai quando se relacionam com homens muito mais velhos e tantas outras histórias que esbarramos por aí”, diz Sandra.

A psicóloga diz ter tido um caso de uma moça que tinha três irmãos homens e sempre foi discriminada pela mãe. Na família sempre houve espaço apenas para os filhos homens, então para ela “só restou ser homossexual do tipo masculino”. A partir daí foi aceita pela mãe. “No entanto, são casos muito específicos”, reforça Sandra. 

Frequentemente me questiono por que muitas pessoas insistem em achar que o desejo por alguém do mesmo sexo é sempre decorrente de um problema na infância ou de uma barreira psicológica e emocional. Não ser heterossexual, para muita gente, é um problema. Por isso, algumas pessoas vêm tentando até curá-la (mesmo depois de a palavra homossexual ter sido retirada da lista de transtornos mentais e emocionais). 

Por conta da necessidade de se “livrar” da homossexualidade é muito fácil começar a procurar justificativas para tentar “reverter” a situação. Se alguém pode deixar de ser gay, lésbica ou bissexual? “Não há evidências empíricas sobre mudanças radicais na orientação sexual. O que acontece é que o desejo não é necessariamente fixo e pode variar ao longo da vida, dependendo de inúmeros fatores”, conta Borges.

O desejo homossexual pode, por exemplo, se manifestar na adolescência como uma forma de autoexploração e depois perder força. Pode surgir em algumas mulheres na fase madura e até prevalecer em situações de restrição, como internatos e prisões. “Mas não se trata nessas situações de mudança de orientação sexual. Um homossexual celibatário deixa de ser gay? Um heterossexual que tem uma experiência homossexual passa a ser gay?”.

Não vamos mais tentar mascarar a sexualidade com problemas, quando na verdade, libertá-la é a solução.

Agora vamos ao debate.
Quem mais já passou por dilemas como esses? Como conseguiram lidar com a questão?