Há um grande número de homens bissexuais que interage no BlogSouBi com uma “teoria” bem clara: gostamos de nos relacionar sexualmente com homens, mas só sentimos vontade de ter relações amorosas com mulheres. 

Não, eles não são homossexuais enrustidos, é o que afirmam categoricamente. “Geralmente os textos que tratam da bissexualidade masculina acabam caindo numa abordagem que tem mais a ver com o processo de aceitação da homossexualidade e não com a tentativa de lidar com os dois desejos ao mesmo tempo, que é muito mais complexo”, contou Flavio ao BlogSouBi.

Segundo ele, seria muito mais fácil ter atração apenas por homens. “Mas o meu desejo por mulheres fala muito alto, de forma que eu jamais conseguiria assumir o desejo por homens em detrimento da possibilidade de seguir me relacionando também com elas”. 

 Por conta do machismo das mulheres, homens como Flávio não assumem a bissexualidade. Serão muito provavelmente tachados de homossexuais enrustidos e, consequentemente, perderão o posto de “machos”. ”É o grande dilema dos homens bissexuais. Nós até que gostaríamos de viver nosso lado homossexual às claras, mas viver abertamente esse lado, na sociedade em que vivemos, anulariam 90% das possibilidades de continuarmos a ser vistos como machos pelas mulheres com as quais gostaríamos de nos relacionar”, disse. 

 Flávio e tantos outros bissexuais começam a trazer à tona desejos muito pouco debatidos na área da sexualidade. Os homens não falam com outros homens sobre o assunto por motivos óbvios. E também não conversam com as mulheres por motivos ainda mais óbvios. Em ambos os grupos serão discriminados e (talvez) ridicularizados. Os homens que fariam chacotas poderiam até sentir o mesmo, mas nunca admitiriam (alguns nem para si mesmos). 

 “Nós, homens, costumamos enxergar a vida com muita objetividade e a sexualidade não escapa desse prisma. A maioria dos homens bissexuais que conheço e com quem me relacionei apresentam o mesmo comportamento. Gostam do sexo com outros homens como um prazer a mais na vida. Totalmente diferente e, por isso mesmo, sem condições de comparação, do prazer que obtêm com as mulheres, que é ótimo. Na nossa objetividade, dentro de um mundo ideal, não faria sentido abrir mão de um pelo outro”.  

 Eduardo tem o mesmo posicionamento. “Já me apaixonei por diversas mulheres e sofri. Mas por homens nunca. Parece que pelo mesmo sexo é algo mais físico. No caso dos homens, me sinto atraído pela beleza estética. Hoje, com 44 anos, pareço estar bem mais maduro. Sinto uma paz interior em falar ou até mesmo aceitar a minha bissexualidade, se eu for mesmo bissexual. 

 Como uma forma de negação, Eduardo conta que chegou a ter ódio de homossexuais, lésbicas, bissexuais e transsexuais. “Tudo o que eu podia falar mal, eu fazia de forma violenta, verbalmente, é claro. Penso que se a sociedade não fosse preconceituosa, eu seria capaz de viver bem sendo bissexual”.

Por conta dessa negação, Eduardo ainda não teve coragem de se relacionar com outro homem, mas vem tentando lidar com essa essa questão. 

 Já para Flávio, a fuga tem sido a infidelidade. Ele namora uma mulher com quem deseja casar e ter filhos, mas às vezes sai com outros homens.

“O mundo é cheio de preconceitos e permeado pelo ideal de fidelidade que não permite a nossa condição ambígua. Aí, muitos caem na armadilha de manter relacionamentos heterossexuais, nos quais conseguem de fato se realizar amorosamente e sexualmente com mulheres, mas com perigosas escapadas homossexuais para conseguir atender ao desejo paralelo de estar com outros homens”

E assim surge a vida dupla e o peso na consciência, sublinha Flávio. “A sensação não é nada boa depois da relação com outro cara, quando surge uma repulsa imediata e aquela vontade de se lavar o quanto antes e ir embora sem nem cumprimentar o sujeito. E é horrível encarar a namorada e lembrar que você a traiu com um marmanjo”. 

 Um estudo realizado em 2003 pela Universidade de São Paulo (USP), com 4 mil pessoas casadas em 17 cidades, constatou que 50% dos homens já traíram suas parceiras pelo menos uma vez. A pesquisa, no entanto, não identifica se as escapadas foram com mulheres ou outros homens. Eles diriam? 

 Outro estudo, feito pela Universidade do Texas, e publicado em agosto de 2013, aponta que os homens são mais propensos a trair por conta de seus impulsos sexuais, que seriam mais fortes em comparação aos impulsos femininos.

 

Como no caso de Flávio, esses impulsos podem acontecer com o mesmo gênero. “Nos encontros com homens que conheci pela internet, a maioria esmagadora era como eu. Tinham também relacionamentos com mulheres, mas sentiam desejo de transar com outros homens. Esse desejo se insere exclusivamente na esfera sexual, nunca transbordando para a esfera afetiva. Tanto que minhas conversas com eles eram como de amigos que se encontram para tomar uma cerveja e não de namorados”, descreve Flávio. 

 Existem bissexuais que se interessam por relacionamentos amorosos, conta Flávio, mas ele diz nunca ter se atraído por isso. “Gosto da delicadeza das mulheres, do jeito de falar, do carinho, do corpo, bem como dos prazeres que só elas são capazes de proporcionar no sexo. Tenho uma namorada com a qual tenho vontade de casar, morar junto e ter filhos. Ela é uma excelente companheira, linda, carinhosa e maravilhosa na cama. O meu desejo paralelo, porém, já me fez traí-la com outros homens. Nunca o fiz com outras mulheres”. 

 A relação sexual com os homens é puramente mecânica para Flávio. “Sem sentimentos, mas bom. Não tem essa de deitar o rosto no peito do outro. Mas não para manter uma falsa imagem de machão e sim por que não é a vontade de nenhum dos dois. Alguns são mais carinhosos, mas não me sinto muito à vontade com eles. Tem caras que mandam mensagem falando que estão com saudades, estes eu já bloqueio porque não gosto desse tipo de papo”. 

 A repulsa seria um reflexo da sociedade machista? Em uma cultura que ainda considera “viado” como xingamento é sempre difícil para um homem “macho” aceitar uma relação homossexual. Há a sensação de estranheza, principalmente quando há qualquer troca de carinho com outro macho.

 Mas seria muito diferente com as mulheres? Somos, no geral, naturalmente mas carinhosas, mas quando iniciei uma relação amorosa com uma mulher também houve estranheza. E muita. Não sei dizer se fui assim também com homens (não lembro de ouvir nenhuma reclamação a respeito), mas minha esposa reclamou muito de “falta de carinho” no início do nosso relacionamento. Eu estaria tentando me habituar àquela nova situação? 

 Como Eduardo e Flávio, também acreditava que com as mulheres era algo mais carnal. E a minha imaginação se limitava apenas ao beijo. Não fantasiava uma relação sexual com uma mulher. Mas isso foi antes de experimentar o beijo. Depois disso, surgiu a vontade de tudo. O sentimento veio depois, quando realmente aceitei que não era apenas curiosidade, uma relação casual. 

“Já me perguntei inúmeras vezes se esse meu comportamento é reflexo de uma não-aceitação, mas acho que diz respeito sim ao tipo de desejo que sinto. Não recrimino quem procura relacionamento com outro homem, só não é a minha praia. O que me incomoda nessa condição é a constante necessidade de manter uma vida dupla ou algo às escondidas. Seria muito mais fácil ser exclusivamente gay ou exclusivamente heterossexual”

Realmente acredito que poucas mulheres tolerariam a bissexualidade de um homem. Incrivelmente, há mulheres mais machistas que os homens sem se darem conta disso. Mesmo que seus parceiros não estejam atualmente saindo com outros homens, mas já tenham tido contato sexual com eles, isso seria motivo de separação. “Uma namorada minha já comentou, sem imaginar que se tratava do meu caso, que perderia totalmente o tesão por um homem se soubesse que alguma vez ele se relacionou com outro”. 

 Se descobrisse, no entanto, que sua namorada é bissexual, Flávio diz que não se sentiria traído. “Ficaria inicialmente intrigado, mas não sentiria que ela estaria necessariamente prestes a me trocar por uma mulher, a não ser que, neste processo, ela se descobrisse exclusivamente lésbica. Eu e a suposta namorada dela, em tese, seríamos pessoas com coisas diferentes a oferecer no sexo e nos relacionamentos”. 

 É realmente uma maneira diferente de encarar as relações. Como mulher bissexual, confesso que não conseguiria manter um relacionamento aberto. Mas Flávio diz não ser essa a solução: “Não venho propor que todos os relacionamentos sejam abertos. Sou muito cético em relação à capacidade das pessoas de aceitarem qualquer variação do ideal de casal, mas gostaria de expor essa inquietação que acomete pessoas como eu. Ao mesmo tempo seria utópico ou ridículo vir aqui e propor que nós, homens bissexuais, tenhamos salvo-conduto das mulheres para que nos relacionemos esporadicamente com outros homens para saciar nosso desejo sexual sem prejuízo para nossas relações amorosas mantidas com elas”.

Por isso acredito ser muito importante definir muito bem todos os limites quando se inicia uma relação. Muitas mulheres podem pensar como Flávio e ambos podem ser verdadeiramente felizes em suas realizações sexuais e amorosas sem grandes crises. “Creio que, além do preconceito com bissexuais masculinos, o que nos obriga a manter vidas duplas é o conceito de fidelidade que perpassa as relações românticas e a noção de que sexo deve estar atrelado a amor, de forma que, se eu transar com outra pessoa, estou necessariamente traindo os sentimentos daquela que me ama. Acho isso tão anacrônico. Pena que a mulher que eu amo pense dessa forma e me acharia um monstro se eu revelasse tudo isso”. 

 Perguntei a algumas mulheres se elas achariam seus parceiros “um monstro” se descobrissem que eles saem com outros homens. “Um monstro não, mas eu iria querer saber por que ele está fazendo isso. Se ele faz, também iria querer fazer. Viveríamos um relacionamento aberto. Mas ele não poderia me esconder”. Outra disse que o marido já se relacionou com um homem no passado e isso não muda o que ela sente por ele, mas se ela soubesse que ele a está traindo, julgaria inadmissível. “Só se fosse algo de comum acordo. Não admito mentiras, não importa se é com homem ou com mulher”. 

 A mentira é certamente um fator destrutivo em um relacionamento. Mas falar a verdade, segundo Flávio, seria destrutivo também. Qual seria, então, a solução? Talvez encontrar uma parceria que aceite essa situação e, claro, saiba da sexualidade do seu parceiro desde o início do relacionamento. Utópico?