Estou com minha mulher há quase cinco anos e moramos juntas faz quatro anos e meio. Não me lembro exatamente quando começamos a nos considerar casadas – um dia decidimos trocar o status de namoradas e comunicamos os amigos, parte da família e algumas pessoas do trabalho.

Minha mãe e irmã desde o começo nos apoiaram em tudo. São a favor de militar pela causa e querem me ver feliz. Minha mana diz ao meu sobrinho de três anos que tenho uma namorada. “Má, não é namorada, é esposa. Fala pra ele esposa”.

E então a coisa se repete. Estamos ao telefone novamente e ela conta que a filha de uma amiga está em casa. E a garotinha pergunta pelo meu marido. Minha irmã responde novamente: “Ela tem namorada”. A menina se surpreende: “Namorada? Mas por que namorada? Ela não encontrou um marido, por isso?”.

Minha irmã ri com a cena e continua: “Não, não. Ela gosta de mulher, por isso tem uma namorada. Entendeu?”. Não, claro que ela não entendeu. Obviamente ninguém contou a ela que isso era “permitido”.

Não é muito diferente com a minha mãe. Quando ela apresenta minha esposa em uma festa ou em uma reunião de amigos, a intitula como “filha postiça”. Depois emenda dizendo que as pessoas podem se assustar. “Eu não tenho nenhum problema, você sabe, mas as pessoas não entendem muito bem isso ainda”.

A mãe da minha esposa nunca se referiu a mim como nora. Almoço com frequência na casa dos meus sogros e vez ou outra, eles dizem à mesa: “Ah, mas nossa filha não casou, né”. Nas festas da família dela, não podemos beijar em público nem nos abraçar. A tia sempre pergunta: “Quando vocês vão arrumar um namorado?”. Depois de quase cinco anos participando dessas festas, sempre ao lado dela, será mesmo que elas não se deram conta de que somos um casal?

Minha avó sempre se refere à minha esposa como “a menina”. “Como vai a menina?”. Sempre preciso repetir o nome dela. Não sei se existe alguma barreira das pessoas em falar o nome de outra quando sabem que são um casal de duas mulheres (ou dois homens).

Diria, no entanto, que até tenho “sorte” (um pequena dose de ironia saindo). Alguns amigos gays e lésbicas são rejeitados pelos pais, outros já apanharam e tiveram de sair de casa. Há ainda aqueles que sofreram graves ferimentos nas ruas por andarem de mãos dadas com seus respectivos.

E tem gente que não casa, não namora. Vive uma vida de aparências, como a nossa personagem do texto “Uma lésbica casada com um homem” (reparem nos comentários, há muitas outras na mesma situação).

Apesar de tudo isso, uma das coisas que mais me dói é não poder andar na rua de mãos dadas sem medo de ser espancada ou de ouvir propostas de ménage, como quando nos “arriscamos” entrelaçar as mãos rapidamente ao sair de um bar até o estacionamento.

E depois de tudo isso, as pessoas afirmam: “Você precisa falar para todo mundo que é casada”. Pois é, eu digo. Já estou dizendo há tempos. Os outros é que não querem dizer.

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