Depois de mais de 10 anos de relacionamento, Viviane* decidiu procurar outra pessoa. Não havia um motivo específico, dizia ela. Só sentiu a necessidade de se relacionar com um homem, depois de passar um longo período com uma mulher.

Ela nunca havia se apaixonado por uma mulher antes. Clara* era a primeira e única paixão lésbica de sua vida. Não entendia muito bem como toda a história desenrolou, mas já estavam ali, morando sob o mesmo teto, há mais de 10 anos. Precisava saber se ainda gostava de homens. E mais, queria descobrir se gostava mesmo de mulher. Mesmo depois de tanto tempo de relacionamento, ainda tinha dúvidas sobre isso. “Nunca me interessei por outra mulher, não sei se de fato gosto, sabe?”, contou ela ao BlogSouBi.

Disse a ela que talvez, a melhor saída, era conversar com sua parceira, tentar entender os motivos desses novos desejos. Ela não conseguia conversar. Simplesmente dizia não ter capacidade de expor todos os seus sentimentos, mesmo porque ela também estava confusa. Em sua busca por uma nova companhia, se apaixonou por outra mulher. “Não acreditei quando isso aconteceu. Não imaginava ser capaz de me interessar por outra mulher, mas acabei me apaixonando”.

 

E então ela começou um caso. Juras de amor por e-mail. Mensagens por aplicativos de celular. Encontros às escondidas. Ela não sabia muito bem o porquê de seguir com aquilo, mas não conseguia parar. Ela não era capaz de deixar de ceder a essa nova tentação. Sua esposa, por fim, descobriu e a questionou. Choraram juntas, relembraram o que já viveram e ela não soube dizer os verdadeiros motivos desse novo acontecimento em sua vida.

Clara descobriu a traição de Viviane da pior forma. Leu troca de e-mails apaixonados entre as duas e viu o seu mundo desabar. “Muitas foram as tentativas de conversar com ela sobre o assunto, mas sempre ouvia mentiras e mais mentiras. Ela negou que tinha escrito o e-mail. Depois de muita insistência, confessou e disse não saber o que sente pela pessoa. Ao mesmo tempo, afirma que me ama. Para a outra pessoa, no entanto, disse que a nossa relação estava desgastada e não me amava mais”, contou Clara ao BlogSouBi depois saber que Viviane acessava o blog.

As últimas mensagens de Clara e Viviane mostraram que elas ainda não conseguiram conversar e se acertar, mas demonstram claramente algo muito comum em relacionamentos: a falta de uma conversa sincera. E geralmente ela acontece por conta de uma das partes.

Por falta de coragem ou até por egoísmo, uma das pessoas do casal não consegue ser completamente sincera. É o caso de Flávio, que tem o costume de trair a sua mulher com homens. No último post, que conta a sua história, ele foi criticado por muitos leitores por sua atitude, considerada egoísta. Muitos gays ficaram indignados com a postura dele – de ter repulsa contra os homens após o ato sexual – e algumas mulheres, que já passaram pela mesma situação com seus maridos, relataram como esse tipo de atitude é humilhante e dolorosa. O problema não está em encarar um novo desejo, mas em mentir para a pessoa que você diz amar.

E 2009, o Ministério da Saúde divulgou uma pesquisa sobre comportamento sexual e constatou que 16% dos brasileiros traem (acho, aliás, bem conservador esse número). São os homens que mais traem (21%) contra 11% de mulheres. Outro levantamento da Tendencias Digitales (feito sem rigor científico, no entanto) indicou que 70,6% dos homens brasileiros já traíram, ainda mais do que as mulheres, com índice de 56,4%.

O que esse panorama nos mostra? Que preferimos atender aos nossos desejos, muitas vezes, sem nos importarmos com o sentimento do outro. Flávio e alguns homens relataram que muitas mulheres – inclusive as deles – nunca aceitariam se relacionar com homens bissexuais. Quando afirmam isso, eles não dão a essas mulheres o direito de escolha. E preferem trair e omitir uma de suas verdades mais profundas.

Poucas pessoas aceitariam um(a) parceiro(a) bissexual? Acredito que sim. Ainda há muito preconceito em relação a isso. Qual seria a saída? Se relacionar com pessoas do mesmo sexo estando solteiro(a). Mas ainda precisamos nos ater a todas essas análises sem julgar em demasia.

Há alguns pontos que também devemos considerar. Muitas pessoas já relataram no blog que acabaram descobrindo a bissexualidade (e até a homossexualidade) durante um casamento heterossexual. “Não sei o que faço. Sempre amei o meu marido e agora me deparei por uma paixão inesperada. Acho que amo uma colega de trabalho, o que eu faço?”. Esse é o tipo de relato muito comum recebido pelo BlogSouBi.

Algumas dessas pessoas terminam o casamento para poderem viver o novo amor. Outras, indecisas e com medo de se arrependerem, preferem experimentar antes de colocarem um fim a uma relação duradoura. E há ainda aquelas que decidiram conversar com o marido e pedir carta branca para vivenciar o novo sentimento. Muitas mulheres conseguiram a carta branca. Para os homens, essa carta branca é mais utópica. Nas histórias que recebi, em quatro anos de blog, me recordo apenas de dois casos de mulheres que aceitariam um homem bissexual (sim, as mulheres brasileiras são muito machistas).

No entanto, a não aceitação por parte do parceiro não é uma desculpa para traições frequentes. Há homens que traem suas esposas semanalmente, com parceiros e parceiras diferentes. Contraem doenças e colocam em risco a vida de suas esposas. E há mulheres que vivem casos amorosos por longos anos fazendo falsas juras de amor e muitas vezes acomodadas pelo conforto financeiro proporcionado pelos maridos.

Não podemos deixar de levar em consideração a bagagem religiosa, cultural e educacional de todas essas pessoas. Muitas delas mantém seus relacionamentos por que aprenderam que casamento é para a vida toda ou que estar com alguém do mesmo sexo é pecado. Preferem manter uma vida de aparências – inclusive para seus próprios parceiros – a assumir que estão apaixonadas por outra pessoa ou que querem simplesmente vivenciar experiências sexuais frequentes com parceiros diferentes.

Pelas relatos recebidos ao longo dos anos, poderia afirmar que poucos casamentos são sustentados pela sinceridade. Na esmagadora maioria, as pessoas não conseguem se expressar como gostariam e sempre colocam a culpa no outro por isso.

Será mesmo culpa do outro? Ser gay, bissexual, heterossexual, trans ou ter qualquer outro tipo de sexualidade não é uma desculpa para enganar alguém. Se o seu parceiro atual “não entende” que você tem também outros desejos, talvez seja o momento de repensar o relacionamento e encontrar alguém com quem você possa compartilhar o seu verdadeiro eu. Não tenha dúvidas, você vai se sentir mais aliviado.

Importante relembrarmos Platão quando disse que a verdade precisa estar sempre sendo buscada. Precisamos estar sempre buscando essa verdade, no gerúndio mesmo, porque somos instáveis. Somos humanos. Erramos e acertamos, mas não podemos nunca deixar de continuar tentando acertar.

The page you were looking for doesn't exist (404)

404!

The page you were looking for doesn't exist.

You may have mistyped the address or the page may have moved.