Não amo mais o meu marido. Todos os dias, me forço a fingir que sinto prazer com ele apenas para não brigarmos. Faz muito tempo que não o amo, nem sei se um dia já o amei. Mas casei por imposição da família. E agora não posso largar esse casamento por conta dos nossos filhos. Como eles vão viver sem o pai?

Esse é um dos tipos de depoimentos mais comuns no BlogSouBi. Esposas que vivem por muitos anos frustradas com o objetivo de continuarem sendo boas mães. Elas não amam mais os maridos – algumas, como nossa personagem acima, – talvez nunca amaram. Se casaram durante uma gravidez indesejada, para esconder a homossexualidade, para fugir da família ou para ter melhores condições financeiras.

Muitas delas poderiam viver bem financeiramente sem os maridos. Não estão com eles por dinheiro, como muitos podem pregar. A causa é outra: elas querem que os filhos tenham uma “família completa”. Como viveriam sem o pai? Como elas explicariam que estão se relacionando com uma mulher? A família ficaria desestruturada.

E então essas mulheres se colocam em uma situação de frustração constante. Infelizes, sem amar, sem viver o que realmente gostariam.

“A vida não pode ser só fuga – negação – defesa – mil modos de NÃO SER. Ninguém pode se anular como se anula uma quantidade matemática”, descreveu o psiquiatra Jose Angelo Gaiarsa em seu livro A família de que se fala e a família de que se sofre.

A nulidade persiste para que seus filhos sejam felizes. Está resguardada no conceito de que as mulheres “devem se submeter as situações, ainda que violadoras de sua individualidade, que envolvem desigualdade e violação de seus desejos e cidadania, a fim de manterem a família unida”, como discorreu a publicação Violência, Gênero e Políticas Públicas, organizada por Marlene N. Strey, Mariana P.Ruwer e Fernanda Pires Jaeger.

Os homens precisam ser servidos. Os filhos, a todo o momento, também precisam ser servidos. E a mulher abdica de todos os seus sonhos e sentimentos para realizar todas as vontades dos integrantes do seu lar.

Para os parentes dessa mulher, melhor que ela esteja frustrada e deixe a família unida, do que busque momentos de felicidade arriscando toda sua “reputação” como mãe e esposa dedicada.

Ela não tem o apoio da mãe, porque a mãe também aprendeu com a avó que a mulher deveria seguir esse rumo. O rumo imposto por outros e nunca por ela. Esse é o seu destino, não há como fugir dele.

Esse pensamento continua se consolidando porque essas mulheres têm consciência de uma valiosa constatação: Todas as vitórias ocultam uma abdicação, como bem disse a feminista Simone de Beauvoir.

Ao optar por abdicar de seus verdadeiros sentimentos, a mulher acredita que mantém a família unida. Pelo contrário. Ela só ensina aos seus filhos uma sábia reflexão de Beauvoir: À minha volta, reprovava-se a mentira, mas fugia-se cuidadosamente da verdade. Por quanto tempo você continuará fugindo?

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