Não sei se gosto mesmo de mulher. Veja bem, estamos lá naquele momento íntimo, ela consegue chegar, eu não. Ela me diz que eu teria de sentir uma sensação ótima no final. Mas eu não sinto nada. Fico excitada, mas não vai. 

Seu nome e idade? Flávia, 22 anos. Entendi, Flávia. Então você quer dizer que não consegue chegar ao orgasmo com mulher, é isso? Sim, acho que é isso. Mas só acontece com mulheres? Você já se relacionou também com homens? Sim, com vários. E chegava ao orgasmo com eles? Não, nunca consegui. Ah, então você nunca conseguiu chegar ao orgasmo? Não…Tá, mas e sozinha? Você já se masturbou, consegue chegar ao orgasmo sozinha? Não, também não. Mas você faz isso? Ah, não, eu acho uma safadeza fazer isso. Safadeza? Não, não é. É uma maneira de se conhecer, de conhecer o corpo. Isso pode lhe ajudar a chegar ao orgasmo. É…pode ser. Não sei não.

Masturbação ainda é um grande tabu para as mulheres. Mesmo tendo vencido a barreira do preconceito de se relacionar com mulheres – além de ter continuado a também se relacionar com homens – Flávia considera “safadeza” conhecer o próprio corpo. “O homem é estimulado desde cedo a explorar sua sexualidade, enquanto a mulher é reprimida nesse sentido. Isso faz com que muitas não desenvolvam o hábito de se masturbar, pois acham que é feio, que é pecado”, afirma a sexóloga e psicóloga Carla Cecarello ao site Bolsa de Mulher, no Guia de Masturbação Feminina (siga, se você ainda não sabe como fazer).

Supondo que muitas mulheres pensem assim, temos um dado ainda mais aterrador. Segundo um estudo da Universidade de Chicago cerca de 70% das mulheres nunca chegaram ao orgasmo com seus parceiros. 

Muitas delas também não vão ao psicólogo por preguiça ou falta de recursos financeiros. “Fui ao ginecologista só quando tinha 10 anos”, afirmou Flávia ao BlogSouBi. Segundo a moradora da Parnaíba, a demora para conseguir uma consulta nos hospitais é muito alta. “Também não consigo um médico particular. Tenho que juntar pouco mais de R$ 200, não tenho. Vou esperar na fila mesmo”, disse.

Quando chegam ao consultório ginecológico, a interação nem sempre é satisfatória. Uma pesquisa da Prosex (USP), coordenada por Carmita Abdo, mostrou que 63% das mulheres têm dificuldades de admitir que possuem um problema. O mesmo levantamento também aponta que 56% dos ginecologistas não investigam a vida sexual de suas pacientes e – pior – 50% mostram-se pouco seguros para responder com clareza sobre problemas sexuais.

Negligenciado para favorecer, principalmente, aos prazeres masculinos, o orgasmo feminino pode, inclusive, exercer influência sobre o coletivo. “O sonho de uma melhor existência social permanece sendo apenas um sonho, exatamente porque acima de tudo, no plano individual, continua comprometida a capacidade de satisfação genital”, aponta o médico e cientista Wilhelm Reich, na obra A Função do Orgasmo.

Uma amiga relatou outro dia o drama de uma conhecida. “O marido dela chega três vezes ao orgasmo em cerca de 10 segundos. Além de traí-la constantemente, ela não sente prazer nenhum com ele, serve apenas como objeto sexual”. Além da submissão e total abdicação do prazer da mulher, qual forte consequência isso trará para sua vida?

“A energia sexual é gerada no corpo e necessita libertar-se através da convulsão orgástica que envolve todo o organismo. Se esta liberação natural fica inibida, se produz um represamento dessa energia (estase), que dá origem a todo o tipo de mecanismos neuróticos”, aponta a terapeuta e supervisora clínica Márcia Helena de Oliveira, em um artigo baseado na obra de Reich.

Orgasmo está além do prazer momentâneo. É libertação – a busca por você mesma.

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