A transexualidade ainda é marginalizada e vista com preconceito pela própria comunidade GLS. “Não acho isso normal”, foi o que ouvi uma vez de uma lésbica. Outra amiga, bissexual, contou que ficou por longo tempo flertando com uma garota em uma casa noturna. Disse ter se decepcionado quando chegou mais perto. “Era um traveco”, afirmou. E eu a questionei: “E qual o problema, não era bonita?”. Era linda, disse a bissexual, mas “não era mulher, não tenho coragem”.

Rechaçados até por quem deveria apoiá-los, os trans obviamente enfrentam dificuldades no âmbito corporativo. Para minimizar a situação, em São Paulo, por exemplo, a prefeitura criou um programa para incentivar a inclusão de transexuais no mercado de trabalho. Serão oferecidas bolsas de R$ 840 para trans em situação de vulnerabilidade

Na linha de obstáculos se encontra ainda a cirurgia para viver no corpo do gênero do qual se identificam. No Brasil, ainda estamos engatinhando na quantidade de cirurgias feitas pelo SUS. ”Foram operadas 30 pessoas no AMTIGOS [Ambulatório de Transtorno de Identidade de Gênero e Orientação Sexual] gratuitamente. Fechamos agora uma triagem de cerca de 80 adultos. Todo o processo pode demorar até 15 anos aqui no Brasil”, afirmou em entrevista ao BlogSouBi, Alexandre Saadeh, psiquiatra coordenador do Ambulatório de Transtorno de Identidade de Gênero e Orientação Sexual.

Para fazer a operação é preciso ter 21 anos, mas Saadeh acredita que a idade mínima deve ser reduzida para 18. “Não justifica ser 21 anos, porque a maioridade é 18”, afirma o psiquiatra.

Saadeh conta que estão em sendo diagnosticados em seu ambulatório 60 adolescentes e 15 crianças. “É preciso passar por pelo menos dois anos de tratamento psquiátrico para obter um laudo favorável para fazer a cirurgia”, explica.

Para entender melhor como funciona o processo de mudança de sexo [o termo correto é transgenitalização] no Brasil, veja a conversa que BlogSouBi teve com Alexandre Saadeh.

BlogSouBi – Para obter atendimento, os pacientes devem ter 21 anos, acompanhamento psicoterápico por pelo menos dois anos e diagnóstico de transexualidade. O que seria esse dignóstico?

Alexandre – É um processo longo. A questão transexual é uma diferenciação sexual do indivíduo, um pseudo hermafroditismo. A diferenciação cerebral é fundamental para a estruturação da identidade de gênero. No dignóstico, à medida que a pessoa se apresenta, buscamos entender quem é essa pessoa. Se ela se identifica mesmo como homem ou como mulher.

BlogSouBi – E como saber se a pessoa é mesmo homem ou mulher? Lembro, por exemplo, de gostar de me vestir como menino na infância. Ao mesmo tempo, eu não me sentia desconfortável com meu corpo. Apenas gostava das roupas masculinas. Como você faz essa diferenciação?

Alexandre – Há muitas questões a serem analisadas. Para você ter uma ideia, 15% a 20% das pessoas que buscam o ambulatório não são de fato transexuais. Esse grupo não tem tanta segurança sobre o que está buscando e, muitas vezes, dou um tempo para amadurecer a ideia. No entanto, alguns realmente não são transexuais.

BlogSouBi – Pode dar alguns exemplos?

Alexandre – Há muitos casos de homossexuais, tanto masculinos quanto femininos, que não se aceitam como homossexuais. Por exemplo, há homens [considerados] afeminados que não gostam de ser assim e acreditam que a única maneira de se aceitarem seria se transformando em mulher. Alguns buscam a cirurgia para se auto-afirmar, mas vamos observando e acompanhando o processo e acabamos constatando que essas pessoas não têm uma vivência transexual.

BlogSouBi – E as pessoas nascem transexuais, certo?

Alexandre – Sim, já nascem. Mas, na infância, muitas vezes, elas são reprimidas. No próprio desenvolvimento infantil vigente, a sexualidade ainda é muito reprimida, então muitas vezes isso só acaba sendo evidenciado na fase adulta.

BlogSouBi – Quanto tempo demora todo o processo para fazer a cirurgia hoje no Brasil?

Alexandre – Ainda há pouco espaço, porque é uma cirurgia complicada. Hoje, o paciente pode esperar até 15 anos para o procedimento gratuito no Hospital das Clínicas [em São Paulo].

BlogSouBi – Quantas pessoas já foram operadas no Hospital das Clínicas?

Alexandre – Do AMTIGOS, 30 pessoas. E já temos 80 pessoas na triagem para fazer o procedimento.

BlogSouBi – Qualquer médico pode fazer essa cirurgia?

Alexandre – Sim, qualquer cirurgião está aprovado. Mas para evitar cair nas mãos de um profissional ruim, os interessados devem consultar os Conselhos Regionais de Medicina para ver se há denúncias e processos contra o médico.

BlogSouBi – Após a cirurgia, o trans continua tendo prazer?

Alexandre – Depende da técnica cirúrgica e do tipo de tecido que será usado para fazer a neovagina [construção de uma vagina]. Há várias técnicas e todas têm boas indicações e contraindicações. Algumas mantém um prazer fantástico, outras vão diminuir consideravelmente e ainda há aquelas que irão eliminar completamente o prazer. Depende da pessoa, da idade, dos hábitos, se ela fuma ou tem diabetes. Todo o conjunto irá influenciar no tipo de tecido e técnica que serão utilizados para fazer a neovagina ou um pênis.

BlogSouBi – Alguém já se arrependeu de fazer a cirurgia?

Alexandre – Não, nunca houve arrependimento, porque temos muito cuidado com isso. Por isso, o processo é lento. Só fazemos a cirurgia quando temos absoluta certeza.

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