Aceitar a bissexualidade envolve muitas etapas – algumas delas dolorosas e incômodas. No geral, a pessoa se relacionou a vida inteira com determinado gênero e depois se vê envolvida por pessoas de outro sexo.

A situação que quero exemplificar cabe mais para mulheres que sempre se relacionaram com homens e estão começando a admitir que se interessam por mulheres – coloque a mesma situação para homens que passaram a se interessar por outros homens. Logo, exploraremos o nosso lado homossexual, o que nos faz termos as mesmas dificuldades de aceitação de alguém exclusivamente homo.

Bem-vinda crise. Sim, a crise passa a ser tão gigantesca que a pessoa entra em um bate-papo para homossexuais e não diz nem em que bairro mora, com medo da outra descobrir quem ela é. É como se, de uma hora para outra, “a nova bissexual” tivesse ficado famosa. Se disser o nome, cidade, idade e bairro, pronto: a sua identidade será revelada. Não, nunca mande fotos (ironia, ironia e ironia), caso contrário irão criar memes virais que serão compartilhados e vistos pela família e amigos.

Alguns leitores do BlogSouBi dizem que não têm coragem para frequentar baladas gays porque podem encontrar alguém conhecido ou correm o risco de se depararem com essas pessoas em outros lugares. Não refletem sobre tamanha obviedade: estão todos na mesma situação.

É o medo. Medo desse novo sentimento. Medo da rejeição. E, claro, medo da família e dos amigos – muitos deles homofóbicos. Mas ele passa, o medo passa se você começa a entendê-lo e aprende a lidar com ele. Dentre os receios estão a fofoca, a rejeição, a insegurança diante da violência contra a comunidade LGBT e a crença de que podemos perder oportunidades profissionais.

Difícil é bater no peito e dizer que basta querer enfrentar. Não é tão simples. Recebo relatos muito tristes. Ainda há muitos pais proibindo seus filhos de se relacionarem com pessoas do mesmo sexo, muita violência da família e grande rejeição dos amigos. Adolescentes me mandam e-mails desesperados, dizendo que os pais querem exorcizá-los, pois qualquer indício homossexual é sinal de demônio.

É muito sério onde essa ignorância está levando a “família tradicional brasileira”. Existe muita brutalidade dentro de famílias que deveriam acolher os seus filhos. A insegurança começa dentro de casa.

E fora de casa a continuidade da estrutura ignorante também mora no âmbito corporativo. Em muitas companhias ainda há piadinhas homofóbicas e uma cultura machista sendo disseminada, deixando gays, lésbicas e bissexuais constrangidos e por consequência com medo de se revelarem. As empresas que não inserirem políticas para homossexuais perderão bons profissionais. Grandes corporações já oferecem pacotes de benefícios para o público LGTB: Walmart, HSBC, Banco do Brasil, Correios, Petrobras e Apple são algumas delas.

Há um movimento acontecendo e ele é mundial – não, não é culpa da novela da Globo. Em junho deste ano, o casamento gay se tornou um direito nos Estados Unidos. Antes da decisão da Suprema Corte, 13 estados ainda proibiam a união homoafetiva. A decisão faz com que o casamento homossexual fosse legalizado em todos os 50 estados norte-americanos. Neste ano também tomaram a decisão da legalização Irlanda, por meio de plebiscito, e Finlândia.

O Brasil legalizou o casamento gay em 2013, junto com o Uruguai, a Nova Zelândia e a França. A primeira nação a promover esse direito foi a Holanda, em 2001, seguida pela Bélgica (2003), Espanha (2005) e Canadá (2005).

São grandes mudanças, mas elas demoraram a acontecer, considerando que a homossexualidade deixou de ser considerada uma doença em 1973, quando foi retirada da lista de transtornos mentais ou emocionais.

Apesar das aprovações, não significa que em todos os cantos desses países haverá respeito de todos os cidadãos. A cultura machista e alimentada pelo senso comum ainda permanecerá por longos anos.

Parte disso, porque o preconceito muitas vezes começa em nós, quando temos medo de ser quem somos, vergonha de dizer o nosso nome ou de alguém descobrir no trabalho. E esse preconceito continua quando não nos permitimos ou imploramos para ser diferentes. E se intensifica quando vivemos uma vida de mentira apenas para agradar os outros, que pouco sabem a respeito desse sentimento.

Depois de ter passado alguns anos em um processo de aceitação e de ter entendido que nem todos irão respeitar quem verdadeiramente sou, aprendi que se em algum lugar eu for rejeitada, haverá outros lugares com as portas abertas. Sempre haverá. Encontre o seu caminho.

“Vá aonde o seu corpo e a sua alma desejam ir. Quando você sentir que é por aí, mantenha-­se firme no caminho e não deixe ninguém desviá-­lo dele”.

Joseph Campbell, autor do livro O Poder do Mito

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