Aos 42 anos, nunca namorei. Não sei o que é ter uma parceira para dividir, rir, brigar, chorar, crescer. Sonho com o dia em que isso irá acontecer e construo em meus pensamentos uma mulher delicada, capaz de compreender meus medos e traumas.

Sou virgem e experimentei o beijo apenas uma vez, na adolescência. Em uma brincadeira, armei para encostar meus lábios nos de um garoto e, pela primeira vez, percebi que havia algo errado. Não que o beijo tenha sido ruim, mas não era o que eu realmente gostava.

Fui quase estuprada. Aos oito anos, fui forçada a ceder aos desejos de uma pessoa em quem eu confiava muito. Ela me levou a um beco escuro para fazer carícias e me obrigar a corresponder aos seus beijos – beijos que prefiro esquecer, por isso não os considero em minha trajetória de vida. Não parou por aí.  Aos 12 anos, um homem invadiu o banheiro onde eu estava e me agarrou à força. Por sorte, ele se assustou com o barulho de alguém chegando, ficou com medo e fugiu.

Minha mãe adotiva piorou qualquer conexão positiva que eu poderia encontrar no sexo. Deliciava-se em dizer que sexo estava relacionado a pecado e ainda gostava de colecionar ofensas contra minha mãe biológica, considerada uma prostituta. “Ela era uma vagabunda que dava em cima de homens casados”, dizia aquela que me criou sobre a mulher que permitiu meu nascimento.

Comecei a odiar tudo que envolvia sexo. Odiei crescer e menstruar. A partir daí, foi inferno após inferno. Tornei-me uma pessoa reclusa e me divertia causando dor aos outros. Brigava, me feria. As coisas pioraram aos 17 anos, quando me vi interessada em uma garota. Foram anos de sofrimento. Essa paixão fez ressurgir todos os meus traumas em um momento em que eu só conseguia pensar em suicídio. Minha mãe ainda continuava a dizer que eu seria uma prostituta, como minha mãe biológica. 

Tentei suicídio duas vezes. Não tive êxito. Surgiram os ataques de pânico e depressão. Passei por psiquiatras e psicólogos que só me irritavam. Nada melhorou. Fui para a Igreja para barganhar uma suposta cura ou um lugar no céu. Fiz vários retiros, seminários, jejuns, orações e uma sessão de exorcismo. Foi horrível. As palavras, o radicalismo com que falavam. Eu não podia sair correndo, se não iriam pensar que o diabo estava querendo fugir. Aguentei até o fim e saí de lá com a certeza de que nunca mais voltaria.

Com a cura descartada, a opção foi controlar e dominar todo e qualquer desejo sexual lésbico. Assim vivi por muito tempo. Fui convertida a pregadora da palavra e com o tempo passei a coordenar o grupo que havia me acolhido para superar a depressão e síndrome do pânico. Mas o tempo mostrou que eu ainda era infeliz. Comecei a sentir falta de amor, carinho, afeto, atenção. Aos 38 anos, eu estava cansada desta guerra. Uma guerra sim. Esse tempo todo, eu estava em conflito comigo mesma. Decidi finalmente aceitar como sou e tenho trabalhado nisso nos últimos quatro anos.

O processo de aceitação foi libertador. Tirei um grande peso das minhas costas. Hoje vejo que as experiências negativas da minha infância interferiram na minha sexualidade. Elas me afastaram de poder vivenciar a minha orientação sexual como algo normal. Eu tinha medo de reproduzir o que fizeram comigo.

Aos 42 anos, não acho que seja tarde para me permitir amar pela primeira vez. Perder a guerra me possibilitou conquistar a tão sonhada liberdade.

O texto foi elaborado com trechos de depoimento enviado ao BlogSouBi

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