Nunca tinha me atraído por mulheres, mas também nunca me apaixonei por um homem. Em todos os meus relacionamentos fui incapaz de me envolver completamente. Ficava com um cara, gostava de estar com ele , tinha atração sexual, mas a relação era sempre precedida de um vazio.

Não sei se sou romântica ou exigente demais. Mas o amor – ou mesmo a paixão – simplesmente não surgiam. Aos 17 anos, conheci uma garota de 15 em um chat de RPG (jogos de interpretação de personagens). Ficamos amigas rapidamente. Com o tempo, percebi que nos dias em que não conversávamos, o dia parecia ter sido inútil.

Eu não havia me tocado – ou pelo menos não queria admitir – que aquele sentimento estava além da amizade. Ela me fazia muito bem, mas era diferente de todas as minhas outras amigas. Na época, ela tinha um namorado e muitas vezes deixava de sair com ele para ficar conversando comigo.

O contato virtual era ainda mais doloroso, porque eu sabia que vê-la pessoalmente seria um desafio. Ela não morava no Brasil, era portuguesa. Nos falamos por telefone, webcam e mandamos encomendas: chocolates, bichos de pelúcia, cartas gigantescas de nove páginas. As trocas só se intensificavam.

Quando completei 20 anos, fiz um acordo com minha mãe. Se eu passasse no vestibular para uma federal, ela me daria uma viagem para Portugal. Passei e a primeira coisa que fiz foi comprar a passagem. Eu precisava conhecer aquela amiga que há três anos não saía da minha cabeça.

Quando a vi pela primeira vez, tive a perturbadora sensação de que nossos olhares já haviam se cruzado no campo pessoal. Aquele abraço foi a melhor sensação da minha vida.

Ela me hospedou em casa, no quarto dela. Os pais dela me receberam muito bem. Descobri que a mãe era Testemunha de Jeová, o que complicou um pouco as coisas.

Passamos 23 dias juntas. Fomos à praia e dormimos na mesma cama. Mas não nos encostamos. Por mais que eu sentisse algo diferente, sempre imaginava que ela também gostava de homens. Mas ela me provocava e eu não conseguia corresponder por conta da minha timidez. “Não acredito que vamos dormir na mesma cama e não vamos fazer nada”, dizia ela rindo. E ao mesmo tempo chorava no meu colo pelo ex.

No dia da despedida, acordei com o choro dela. A abracei e disse que nos veríamos novamente. Choramos juntas até eu acenar e encarar minha partida.

Ficamos mais dois anos conversando todos os dias pela internet e o sentimento não desapareceu. Só ficou mais forte. Ela juntou dinheiro durante esse tempo e comprou uma passagem para o Brasil.

Também a busquei no aeroporto e a hospedei em minha casa, em meu quarto, assim como ela tinha feito. Continuamos as brincadeiras. Mãos entrelaçadas, tentativas de imobilização. Sempre encontrávamos maneiras de nos encostar.

Fomos a festas e lugares cheios de natureza.  Nos aventuramos em uma região montonhosa e acabamos nos estabelecendo em um chalé. Nada aconteceu. É como se tivéssemos um escudo heterossexual que nos impedisse de fazer qualquer coisa. 

Na nossa próxima parada, a praia, ficamos na casa do meu irmão. Ela se arriscou a ir mais longe. Tentou tomar banho comigo quando voltamos do banho de mar. Eu recusei por motivos óbvios, mas meu irmão disse que era normal amigas tomarem banho juntas no Brasil. Ela olhou para mim ironicamente: “Viu? Não tem problema”. Mas continuei recusando. Eu não conseguiria me conter, eu não podia aceitar.

Durante esse tempo, continuei me relacionando com homens. E a atração física por eles permanecia. E a paixão, o amor, continuam não surgindo.

Eu também não sentia atração física por outras mulheres. Eu não sentia nada e isso me deixava mais confusa. Mas eu sabia, sabia que a amava. Ainda assim não sabia se poderia me considerar lésbica ou bissexual por amar uma única mulher.

Não conseguia mais ficar “longe dela” e continuava todos os dias a conversar virtualmente. Minha família me acusa há anos e ser viciada em internet – mal sabem eles que eu era viciada era nela.

Um dia meu coração disparou mais do que o normal. Ela disse que me amava. E que não podia mais se conter. Confessou que me amou desde o primeiro dia. Fiquei em choque, mas muito feliz ao mesmo tempo. Descobri finalmente que era recíproco, não era algo da minha imaginação. Claro que aproveitei para me declarar também e contar os meus sentimentos durante todo aquele período.

O meu mundo desabou segundos depois. Ela respondeu dizendo que era uma relação impossível. Éramos mulheres, ambas “heterossexuais” e continuávamos tendo atração por homens. Concluímos que não teríamos coragem de assumir uma relação homossexual.

E então chegou um dos piores dias da mina vida. Ela começou a namorar um homem da igreja e disse que não poderíamos mais nos tratar daquele jeito. O tom das conversas deveria mudar. Eu não consegui, era impossível me conter para não falar mal do namorado dela, mesmo sem conhecê-lo. Eu me senti péssima por não gostar de alguém que eu nem conhecia. Pedi um tempo a ela para refazer a minha vida. Tinha passado oito anos vivendo com um sentimento amargurado dentro de mim e não podia conviver com aquela nova situação.

Ficamos quatro meses sem nos falar. Como sempre, me relacionei com rapazes, mas o sentimento por ela continuava o mesmo. E as relações continuavam frustrantes. Ela então me mandou um e-mail falando que tinha terminado, disse que me amava e por mais que se esforçasse não conseguia me esquecer.

Ela me contou que o namorado sempre perguntava por que ela tinha tantas fotos minhas e qual o motivo de querer se comunicar comigo a todo momento. Ela não sabia [não podia] responder. Voltamos a nos falar e ela se mostrou aliviada pelo término. Disse que era uma relação que a mãe queria e a igreja aprovava. Mas não era o que ela queria.

A nossa “relação” se fortaleceu. Depois de quase 10 anos, nem acredito que conseguimos passar por tudo isso sem o tão sonhado beijo. Não aguento mais esconder esse sentimento. Passei quase uma década mentindo para os meus amigos, para minha família. Minha mãe não sabe, mas deve desconfiar.

Há 10 anos me apaixonei por uma menina que hoje é um mulher. Uma mulher que voltará em dezembro deste ano ao Brasil. Sinto que desta vez será diferente. É tudo mais intenso, mais maduro. Tenho hoje 26 e ela 24. Ainda não sei como iremos reagir, mas não irei mais fugir dos meus sentimentos. Eu quero viver essa amor, se ela também quiser.

O que me dói é que será um sonho vivido em poucos dias. Está tudo contra nós. A religião, o preconceito, a distância, o medo. Temos apenas uma arma para entrar nesta luta: o nosso amor. Se hoje não for suficiente, espero que um dia seja.

O texto foi elaborado com trechos de depoimentos enviados ao BlogSouBi