Gosto de me identificar como bissexual. Com apenas uma palavra poderia dizer, sem explicar muito, que me atraio por homens e mulheres.

Mas a verdade é que a palavra não se sustenta sozinha. Pelo menos não ainda. É preciso ser precedida de muita explicação. Se você é bissexual, por que está casada com uma mulher? Se você é bissexual, por que não está com duas pessoas ao mesmo tempo? E por que poderíamos confiar que você será uma pessoa fiel, afinal, sempre terá desejos por ambos os sexos?

O rótulo não nos permite, ainda, fugir de tais questionamentos, mesmo que para os bissexuais, as respostas pareçam óbvias. Podemos ser monogâmicos e não precisamos estar com duas pessoas ao mesmo tempo para assumirmos tal identidade.

O rótulo, ao mesmo tempo que nos liberta, nos aprisiona. Basta relembrar casos de gays que de repente se viram interessados por uma mulher e entraram em grande conflito. Se você é gay não pode se atrair um dia por uma mulher. Se é heterossexual, como se interessou por alguém do mesmo sexo? E o bissexual às vezes fica refém do binarismo [a divisão entre "homem" e "mulher"]. Ao afirmar que nos interessamos por homens e mulheres estaríamos limitando o nosso foco, que pode se estender a um terceiro gênero – adotado por pessoas intersexo [comumemente chamadas de hermafroditas] ou transgêneros.

E então poderíamos trazer à tona os pansexuais. Aqueles que têm atração por qualquer pessoa, independentemente da indentidade de gênero, excluindo assim o binarismo que tornou os bissexuais “prisioneiros”.

Se identificar como pansexual abriria, portanto, a possibilidade de se relacionar com qualquer gênero. E então podem surgir algumas perguntas. Se a pansexualidade imperar apenas no discurso e você nunca se relacionar com um intersexual e preferir sempre estar com pessoas do mesmo sexo? Isso o faria apenas um homossexual? O que valeria mais, o discurso ou a ação?

A feminista Judith Butler, ancorada em Michel Foucault, nos trouxe a ideia de que o gênero é discursivamente construído. Ou seja, o que conhecemos por “masculino” e “feminino” foi uma construção da nossa cultura. Poderíamos ainda dizer que a definição se estende também às identidades sexuais

A reflexão nos leva a questionar se devemos mesmo adotar rótulos para nos identificar. Em uma sociedade que utiliza como padrão a heterossexualidade, talvez ainda se faça necessário. Mas se adotássemos o conceito da total ausência de rótulos que eliminaria, inclusive, o “predominantemente heterossexual” da Escala Kinsey? Teríamos um caminho diferente a ser percorrido, com menos regras, critérios e discursos construídos ou as pessoas ainda teriam a necessidade de identificação?

Temos a necessidade de identificação apenas para nos opor ao padrão heteronormativo ou por que necessitamos fazer parte de um grupo?

Denys Cuche, em A noção de cultura nas ciências sociais, argumenta que a cultura como matéria-prima da antropologia não é um dado, uma herança, algo que se tem e que se herda, mas é uma construção que se inscreve na história das relações humanas dos homens entre si. Segundo Cuche, a cultura de um grupo não é independente de outro grupo com que ele se defronta, e nesse confronto criam um campo de tensão. 

Estaríamos fadados à constante necessidade de conflito dos “grupos” da sexualidade ou conseguiríamos eliminá-los no curso da história?

The page you were looking for doesn't exist (404)

404!

The page you were looking for doesn't exist.

You may have mistyped the address or the page may have moved.