Ter um homossexual na família geralmente é guardar segredo (ou fazer fofoca “em segredo”). Chega o dia da festa da parentada e a recorrente pergunta não deixa de imperar: ”E aí, quando você vai arranjar um namorado?”.

As pessoas dão risada, se entreolham confirmando que dividem o mesmo segredo, e a lésbica da família fica mais uma vez constrangida.

E então um dia o namorado aparece para quebrar todas as desconfianças. A garota respira aliviada por não ter mais de dar satisfação. A mãe fica animada em poder falar do futuro casamento da filha. As tias perguntam quando terão filhos. Os vizinhos comentam como o namorado dela é bonito e elegante e desenham um destino brilhante para o casal.

Por trás do alívio, no entanto, surge um peso maior. A mentira. Ela não queria estar com aquele rapaz. O seu desejo íntimo não era constituir uma família no padrão heterossexual. Era o sonho dos pais, não o dela. Ela gosta de mulher, mas não quer decepcionar os familiares.

Quando ela era criança, não via beijo gay na rua, nas novelas, nos comerciais, no colégio. Nem sabia o que era isso – a não ser dentro de si mesma. Por que ela era diferente? Por que nenhuma garota queria beijar outra garota como ela? Ninguém falava sobre isso. Quando finalmente ouviu falar sobre o assunto, a mãe veio logo dizendo que era pecado. Ela se sentiu horrível. Tudo aquilo que sentia eram desejos pecaminosos?

Teve receio de experimentar o tão sonhado beijo com aquela amiga que preenchia suas noites de sono. Teve raiva, muita raiva. Pensou em se matar, em mudar de cidade. Depois quis cometer “um pecado” e ver se iria mesmo para o inferno. Teve medo e desistiu.

Anos depois descobriu que não era nada daquilo. Ser lésbica não era pecado e nada do que sentia a levaria para o inferno. Ela estava presa a uma norma irreal, construída por uma cultura que associou a homossexualidade a doença, pecado, perversão. Ela viveu aquilo que a feminista Adrianne Rich chamou de heterossexualidade compulsória. Foi forçada a se tornar heterossexual.

Não conseguiu “subverter” o sistema.  A massa já tinha comprado a ideia (e ainda compra). A publicidade, a economia, as instituições religiosas, a educação.

O medo de fugir do que lhe fora imposto desde pequena a fez preferir ter relações sexuais com um homem por quem não sentia desejo. Reprimiu a vontade de estar com uma mulher e se contentou apenas em imaginar como seria tocar um corpo feminino. 

Descobriu muitos anos depois, já casada e com filhos, que outras mulheres haviam feito a mesma “opção”. Não estava sozinha. Elas também tinham passado pelos mesmos medos, pelas mesmas frustrações. Teve esperanças, mas ainda faltava coragem. Percebeu que só seria possível viver aquilo que sempre quis se não se preocupasse mais com a opinião alheia. Enfrentaria o modelo heternormativo, mesmo sob protestos da família. Não continuaria a viver uma farsa.

Enquanto brigava com ela mesma, em suas profundas reflexões, uma amiga enviou uma frase, da feminista Simone de Beauvoir. Foi a resposta para sua dúvida. “O seu amor, a sua ternura, eram apenas um sonho. Mas valeria a pena aceitar sonhar um amor que queremos viver na realidade?’.

O conto é baseado em histórias enviadas ao BlogSouBi

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