Decidi me tornar uma leiga consagrada contra a vontade de minha mãe. Esse posto não me tornava oficialmente uma freira, mas me fazia viver como uma. Fiz os votos de castidade, obediência e pobreza – naquela época, o leigo consagrado fazia votos, atualmente, muitos não os fazem mais. 

Minha mãe ficou sem falar comigo por anos, não aceitava. Ela sempre desejou que eu fosse uma profissional bem-sucedida e atingisse um grau elevado na área acadêmica. Fui contra o desejo dela quando vi surgir dentro de mim uma vontade de me dedicar exclusivamente a Deus.

Entrei em uma comunidade católica. Estar na Igreja me fazia sentir importante, amada por Deus e valorizada por ser colocada em posições de liderança. Desenvolvi meus talentos, conheci muitas pessoas e vi que era capaz de realizar muitas coisas.

Sempre fui muito tímida e aquele ambiente me ajudou a lidar com a timidez. Fiquei apaixonada pelo estilo de vida da Igreja. A rotina era bem puxada. Acordava cedo pra rezar, depois fazia atividades domésticas e seguia com as atividades pastorais. Muitas vezes os afazeres entravam pela madrugada.

A minha paixão começou a perder o ritmo quando passei a me dar conta de algumas situações dentro da Igreja. O clima era bem homofóbico, com piadinhas sobre gays e lésbicas. E aquilo me incomodava profundamente, porque dentro de mim existia um sentimento que decidi esconder quando optei por seguir a vida religiosa. Eu gostava de homens, mas também de mulheres.

Eu não entendia muito bem essas atrações. Se eu gostava de homens, como poderia ser lésbica? E se eu era lésbica, por que também gostava de homens?

Essas reflexões foram escorraçadas para um lugar em minha mente que eu evitava acessar. Procurava me jogar nas orações de maneira tão intensa que essas sensações ficavam escondidas, apagadas, esquecidas.

Volta e meia elas ressurgiam, como qualquer lembrança que você tenta esquecer e não consegue. Faz parte de você, do seu aprendizado, da sua identidade. Era desesperador tentar me despir desses sentimentos. Eu continua sentindo desejo, querendo ter prazer.

Foram nove anos exercendo uma vida religiosa, julgando que conseguiria me livrar de todos esses sentimentos. Eu não queria me aceitar. Então comecei a atender grupos de jovens e a tocar no drama dos meninos homossexuais que ali estavam. Foi quando a minha própria sexualidade veio à tona com muita força.

Quando vi que não conseguiria mais suportar essa situação, contei aos meus superiores o que sentia, mesmo morrendo de medo de ser expulsa. Eu julgava que estava enganando a todos, não podia mais seguir daquela maneira e me achei a pior das criaturas neste dia.

A esposa do fundador da comunidade – que não era padre, mas o responsável pela fundação do espaço religioso -, me acolheu muito bem. O fundador não foi tão receptivo. “Mas o seu nome é de mulher. Você menstrua todo mês. Isso que você sente não existe, não é de Deus”. A maior hipocrisia é que ele já tinha feito- e fazia – muitas coisas que também não eram “consideradas de Deus”. 

E então eu passei a lembrar da minha infância e de tudo que já havia acontecido comigo, mas que passou a ser barrado na fase adulta. Quando eu era criança, fazia algumas brincadeiras com outra menina. Eu tinha uns oito anos, ela dez. Para mim, era natural. Achei bobagem quando ela disse que não queria mais fazer aquilo porque era coisa de sapatão.

Na adolescência, os desejos afloraram. Eu pensava em namorar uma menina, mas nunca tive coragem de dar esse passo e só me relacionei com garotos. Dois ex-namorados se assumiram gays – veja como a vida é engraçada -, e um deles é meu melhor amigo.

Foi muito difícil conviver com esse sentimento guardado por tanto tempo. Quanto mais eu me aprofundava na espiritualidade, menos queria pensar nos meus desejos por mulheres, porque, segundo a Igreja, era pecado. Eu queria esquecer e lá no fundo tinha um grande culpa que se somava a um medo e nojo de mim mesma.

E então comecei a pesquisar sobre o assunto e a entender a minha bissexualidade. Percebi que era a minha identidade, que eu não tinha mais como fugir disso. Quando me dei conta de que esses sentimentos não iriam desaparecer, consegui finalmente me aceitar. Contei para a comunidade, deixei a vida religiosa. Não tive ainda coragem de contar para a minha mãe, mas um dos meus irmãos já sabe e me apoia. Vou contar a ela, mas ainda estou me preparando psicologicamente. Não sei se iniciaremos outra grande guerra por ela querer novamente que eu seja alguém que eu não sou.

Beijei a minha primeira mulher recentemente. Um beijo bom, intenso, que não me causou a estranheza que imaginei que sentiria. Só me mostrou o que eu já previa: vou querer repetir isso por muito tempo. Até quando Deus permitir, porque hoje eu sei, ele me permite.