Estava noiva de um homem quando comecei a trabalhar em uma nova empresa. Rapidamente fiz amizade com Camila. Usávamos o horário de almoço para conversar e criticar as condutas abusivas da companhia. Começamos a estender as conversas para bares e baladas. Ela levava o namorado dela e eu ficava acompanhada do meu noivo. Estranhamente comecei a reparar nela de maneira diferente. Os olhos, a boca, os cabelos, a voz, o corpo. Ela encostava em mim delicadamente, às vezes segurava minhas mãos. Eu retribuía com um sorriso sem graça, nervoso.

Para o meu tormento, enquanto fumávamos no intervalo do expediente, ela me disse que era lésbica. Tinha um namorado apenas de fachada. A família não aceitava e era a maneira de ela ficar em paz. Aquela revelação fez meu coração disparar. Procurei não pensar em nada naquele momento, mas só me vinha na cabeça uma verdade que eu não queria aceitar de jeito nenhum: estava apaixonada por ela. Relembrei a minha adolescência, quando sentimentos como esse ainda me sufocavam por dentro. Sempre olhei diferente para minha melhor amiga. Era uma admiração desejosa, que eu tentava repelir de todas as maneiras. Receber a revelação de Camila, aos 19 anos, fez tudo vir à tona novamente.

Ela me ligou alguns dias depois me chamando pra sair. Apenas nós duas, enfatizou do outro lado da linha. Ao chegar, pedi logo uma bebida. E depois outra, outra e mais outra. A música eletrônica tomou conta dos meus movimentos. Eu fechava os olhos para não olhar pra ela. Uma hora nos dispersamos – inconscientemente eu tentava fugir daquele corpo. “Estou apaixonada por você”, falei sem pensar. Consumida pelo álcool, não lembro exatamente a resposta. No dia seguinte meu celular tocou. Era ela. “Você lembra o que me disse ontem?”. Fingi não lembrar. “Tem certeza?”. Não tive coragem de assumir.

Alguns meses depois, ela tomou a iniciativa de me beijar. Foi uma sensação incrível e ao mesmo tempo torturante. O que eu estava fazendo? Os meus pais me diziam que aquilo era errado. Todo mundo me dizia que era errado. Começamos a namorar, mas decidi ir à Igreja, para tentar me livrar daquele sentimento. “Você precisa mudar de vida. Isso é abominável aos olhos de Deus. Há a chance de cura. Deus pode te curar desse mal, dessa prisão sem grade”. As palavras do pastor entravam como facadas no meu coração. Chorava quase todos os dias e tentava ao máximo negar tudo o que eu estava sentindo. Deus me perdoaria? O que aconteceria comigo? O pastor afirmou que eu devia ter passado por algum trauma de infância e encontraria um homem para constituir família. O meu ex noivo poderia ter sido esse homem, mas eu não o amava como ela. Ele era uma pessoa incrível, mas não tirava os meus pés do chão, não me fazia saltar de alegria apenas com o olhar. Eu só conseguia pensar nela.

Minha mãe havia percebido que algo “estava errado”. De alguma maneira ela sabia do meu envolvimento com Camila. Então ela começou a me obrigar a frequentar os cultos. Se eu não fosse, não poderia sair de casa. Se eu tentasse enfrentar meus pais, era pior. Preferia ceder para não correr o risco de ficar trancada sem sair. Do outro lado, minha namorada começou a insistir para que nos víssemos com mais frequência. Era pressão dos dois lados. Eu cedia, a beijava, e amargava no final do dia aquela culpa. Enquanto eu estava com ela era maravilhoso, mas depois me sentia um lixo, com um peso enorme nas minhas costas. Eu chegava em casa e recebia um olhar de desgosto da minha mãe. Ela me recriminava, me ignorava.

Sustentei uma relação com Camila durante dois anos e não aguentei mais tanta pressão. Terminei o relacionamento por achar que não conseguiria um lugar no céu. Era insuportável ouvir na Igreja toda a semana que o meu amor era pecado. Minha mãe acreditava que quanto mais eu fosse para lá, menos sairia de casa. Era um sentimento me oprimindo, sufocando. Eu achava que Deus estava triste comigo e eu não era uma pessoa legal. Minha angústia era tamanha que tive coragem de contar para o pastor. Em vez de acalmar meu coração, ele passou a fazer comentários extremamente negativos contra a homossexualidade nos cultos.

Junto com minha família, o líder da Igreja começou a me pressionar para fazer o batismo. Era uma maneira de me “purificar”. Nesse tempo, fiz de tudo. Tentei frequentar o culto mais assiduamente, mas de nenhuma maneira minha dor era aliviada. Pedia para mudar de vida, de sentimento, mas ele só crescia mais dentro de mim. Negá-lo era ainda mais doloroso do que aceitá-lo.

Cheguei a me relacionar com homens, alguns fiquei uma ou duas vezes, outros namorei sério e cheguei até me apaixonar. Com eles era mais visceral, com elas mais sentimental. Logo terminava qualquer relação com homem para me envolver com uma mulher. Fiquei nesse vai e volta por uns quatro anos até reatar com Camila. Minha mãe descobriu e chorou copiosamente. Disse que nunca iria aceitar.

“Chorei por alguns dias, mas não desisti novamente de viver aquele amor. Percebi que fazia parte de mim e nada do que eu fizesse poderia mudar aquela sensação. Fiquei com medo de ser excluída como membro da Igreja. Se alguém descobrisse, iriam tirar a minha carteirinha e eu não participaria da Santa Ceia. É uma das maiores punições lá dentro. Se você não está na lista já é visto como pecador. É uma vergonha para sua família.

Passei a evitar a Igreja para não vivenciar nenhuma situação vexatória. Procurei outras instituições religiosas após receber indicação de uma amiga. Não demorei a perceber que eu havia passado por uma lavagem cerebral. Conheci pastores contemporâneos que tinham outra ideia da homossexualidade. Era uma visão mais humana da situação. Eles não me enxergavam como uma pecadora por também gostar de mulheres. Foi um grande conforto. Percebi que estava sofrendo por algo que não era abominável da forma como os outros pastores diziam citando a Bíblia. Ao ler o livro sagrado, percebemos que fazemos muitas coisas que vão contra seus versículos e, em tese, são bem piores do que gostar de alguém do mesmo sexo. Esse foi o meu maior aprendizado. Falar com Deus sem a intermediação desses pastores que condenavam algo que não é condenável. Deus passou a falar comigo por meio de abraços, um pôr do sol, um e-mail caloroso. Ele sempre está falando comigo. É uma voz suave, confortante.

Eu não preciso mais da relação de barganha que a Igreja exigia de mim. Ela dizia que se eu fosse uma boa serva e obedecesse os mandamentos seria salva e teria emprego e prosperidade. Eu poderia ser rica, prometiam os líderes religiosos. Depois de anos frequentando a Igreja, cortei meus laços com ela. As ameças aconteceram, é claro. Tudo daria errado na minha vida depois dessa decisão. Eu poderia ir para as drogas, para o inferno, ficar doente. Ficar longe da Igreja seria meu fim. E então eu percebi que eu era consumida pelo medo e não pelo amor a Deus. Não era o meu coração que estava ali. E ele nem poderia estar. Ele tem um amor que essas Igrejas ainda não conhecem.”

Texto elaborado com base em depoimento feito pessoalmente à autora do BlogSouBi

The page you were looking for doesn't exist (404)

404!

The page you were looking for doesn't exist.

You may have mistyped the address or the page may have moved.