Alguns amores podem parecer impossíveis. Geralmente, um dos lados alimenta alguma crença que impede a vivência de um novo sentimento. Pode ser nutrido pela lembrança de um passado longínquo ou por algum suposto ensinamento religioso. Esses dois amores ainda podem tentar se entregar, mas pensamentos fixos e contraditórios irão atormentar a vida do casal até atingir uma quebra inevitável – talvez irreparável.

Vitória* se considera lésbica desde que se conhece por gente. Tem uma família “mente aberta”, que sabe de sua sexualidade e a apoia. Há quase cinco anos, começou a trabalhar em uma empresa e logo foi promovida. “Passei a exercer uma função em conjunto com outros profissionais da minha área e conheci uma mulher, Laura*”. Vitória morava com ex-namorada há três anos e Laura era solteira. “Eu me considerava uma pessoa bem resolvida e estava feliz com minha companheira, mas um sentimento novo me surpreendeu quando comecei a conversar diariamente com essa amiga do trabalho. Nos entendíamos somente com um olhar”.

Tinham o mesmo cargo, os mesmos problemas profissionais. Conversavam por horas, dias, e sempre havia algo que não tinha sido dito. Laura passava por uma situação complicada. Havia conhecido uma mulher, mas não foi capaz de assumir para ninguém. A mulher se afastou por não suportar viver com alguém incapaz de assumir um relacionamento lésbico. “Conversamos muito sobre o relacionamento dela. Ficávamos bem à vontade no bar e começamos a nos aproximar muito. Essa proximidade foi nos relevando a algo que eu não queria admitir. Estava me apaixonando por ela e ela por mim”.

O sentimento de Laura pela ex já não doía, enquanto Vitória percebeu que já não amava mais sua namorada. Terminaram um tempo depois. “Sofri em dobro. Primeiro por terminar uma relação de quase quatro anos. Não foi fácil. Depois, eu precisava entender o sentimento dentro de mim, que foi a parte mais complicada. Difícil distinguir se o que eu estava sentindo era amor ou apenas uma paixão momentânea”.

As conversas ficaram mais intensas e, quando ambas se viram solteiras, se permitiram dar o primeiro beijo. Perceberam que estavam mesmo apaixonadas. Não demorou para que engatassem um namoro. Vitória passou a entender o que a ex de Laura vivia. Ela continuava sem coragem para assumir o relacionamento com outra mulher. “Nunca tive necessidade de esconder meus sentimentos, mas ela simplesmente não era capaz disso”.

Com algum custo, Laura conseguiu assumir o namoro para poucos amigos. Contou para a irmã mais nova, depois a mais velha acabou por descobrir lendo algumas mensagens no celular. A mãe nunca soube. É evangélica, muito religiosa, do tipo que vê um homossexual e tenta convertê-lo ao evangelho.

Mesmo com o constante receio de Laura, decidiram morar juntas. Compraram um carro e planejavam comprar um apartamento. “Eu dizia a ela que não queria mais viver escondida. Se estávamos planejando uma vida juntas, queria que fosse de verdade. Mas então tudo mudou e minha dor de cabeça começou”.

Laura continuou negando para muita gente que estava comprometida. “Apesar de alguns amigos, minha família e as irmãs dela saberem do nosso relacionamento, sempre que um ex-namorado ou alguém interessado nela perguntava se ela estava com alguém, ela afirmava que não. O que para mim era o fim do mundo, humilhante. Ela sabia o quanto isso me chateava”.

O primeiro rompimento foi inevitável. “Ela dizia que estava cansada das nossas brigas e eu estava cansada de ficar escondida”. Retomaram o relacionamento na mesma semana. Vieram as juras de amor e os acordos. Durou pouco tempo. Em um mês veio o segundo rompimento, dessa vez de maneira definitiva. “Permanecemos morando juntas por nove meses e mesmo ‘afastadas’, eu ainda amava e ela também dizia o mesmo. Era muito cansativo amar alguém e não ficar junto”.

Discutiram várias vezes durante a madrugada. Choros sem fim e tentativas de retomar a relação. “Mudei muitas coisas em mim, mas percebi que o problema nunca tinha sido o meu jeito e sim o fato de que ela jamais conseguiria se aceitar, aceitar o nosso relacionamento, o nosso amor. Entendi que, para ela e sua religião, namorar uma mulher era um fardo impossível de carregar”. Ainda havia amor, o brilho no olhar, mas os pensamentos incutidos em Laura impediam que ela conseguisse se libertar. “Eu a amo como nunca amei ninguém e talvez nunca volte a amar. Me vi perdida, meu mundo caiu. Ainda não sei o que fazer, mas estou muito cansada para continuar lutando por ela. Não moramos mais juntas. Queria ser egoísta o suficiente para deixá-la viver sua escolha, sofrer as consequências,  mas não quero deixá-la partir”.

*Os nomes são fictícios para preservar a identidade das personagens

The page you were looking for doesn't exist (404)

404!

The page you were looking for doesn't exist.

You may have mistyped the address or the page may have moved.