Elas se conheceram na internet, em um chat de jogo online. Na época, Karina* estava com 17 anos e Gabriela* com 15. Como relatado neste post, que conta o início de toda a história, elas conversaram durante 10 anos frequentemente e se encontraram pessoalmente algumas vezes.

Quando a vi pela primeira vez, tive a perturbadora sensação de que nossos olhares já haviam se cruzado no campo pessoal. Aquele abraço foi a melhor sensação da minha vida”, contou Karina sobre o primeiro encontro no aeroporto. Karina mora no Brasil e Gabriela em Portugal.

O medo do envolvimento e a religião impediram o tão sonhado beijo nos poucos encontros que tiveram nesses 10 anos. “Não aguento mais esconder esse sentimento. Passei quase uma década mentindo para os meus amigos, para minha família. Minha mãe não sabe, mas deve desconfiar. Há 10 anos me apaixonei por uma menina que hoje é uma mulher”, diz Karina.

Como ela conta no post anterior, em dezembro ela encontraria novamente com Gabriela. “Sinto que dessa vez será diferente. É tudo mais intenso, mais maduro. Tenho hoje 26 e ela 24. Ainda não sei como iremos reagir, mas não irei mais fugir dos meus sentimentos”.

Karina contou ao BlogSouBi  como foi o tão esperado encontro:

Depois de ler todos os comentários do meu relato no blog, me senti na obrigação de escrever a continuação dessa história de 10 anos. Quero agradecer a todos que me ajudaram, contando suas dificuldades e dando conselhos. Quando decidi relatar os últimos 10 anos, estava muito confusa, triste e conformada com a situação. Não via saída para tudo o que estava acontecendo. Eram muitos pontos contra e se tornava cada vez mais difícil lidar com a situação. Li no blog histórias de pessoas que esperaram 40 anos para se libertarem.

Eu e Gabriela continuávamos a conversar todos os dias e, claro, o assunto sobre a vinda dela ao Brasil era sempre o principal. Eu dizia a ela que seria difícil nos controlarmos, mas ela sempre tinha atitudes ‘bipolares’. Às vezes falava que aconteceria, que era o seu desejo, e outras falava que não era possível – a religião a condenaria.

Em uma de nossas conversas brigamos. Faltava uma mês para chegar ao Brasil e, categórica, ela disse que nada aconteceria. Falou que o nosso sentimento não agradava a Deus. “Esse mesmo Deus que nos condena, me fez amá-la. Não acredito que ele nos daria algo tão bom e puro para simplesmente condenar depois”, respondi. 

Fiquei mal, desabafei com algumas amigas, mas decidi recebê-la normalmente em minha casa e curtir, mesmo que as coisas não evoluíssem como eu queria. A ansiedade aumentava a cada dia e eu não via a hora de vê-la novamente, depois de longos cinco anos, a última vez que nos vimos pessoalmente. 

No grande dia, 29 de dezembro, ela saiu de Lisboa, fez escala em Marrocos e pousou em São Paulo. Fui recepcioná-la no aeroporto com minha mãe, que não sabia de nada. A reconheci de imediato, quando ela passou para pegar as malas. Senti meu coração quase explodir naqueles minutos intermináveis até poder finalmente abraçá-la. Um abraço tão forte e, ao mesmo tempo, tão contido por minha mãe estar ali.

Gabriela contou que sua mala tinha sido extraviada e, na mochila que carregava, só estavam algumas poucas calcinhas, um pijama e alguns artigos de higiene. Tive que emprestar roupas e pegar outras peças com minha tia. Rimos muito dessa situação, ainda mais por que dentro da mala perdida havia uns bons quilos de bacalhau, que ela trouxe de presente para minha mãe, e ficamos imaginando como as roupas ficariam com um cheiro ótimo.

Eu a hospedei no meu quarto, assim como da última vez. Não dava para acreditar. Ela estava ali, na minha frente, e eu podia tocá-la, segurar em suas mãos. Não era sonho. Não conseguia parar de sorrir, conversamos por horas, segurando a mão uma da outra – ela na minha cama e eu em um colchão ao lado. Aquele sotaque português que eu amo e, mesmo ela usando o pijama da minha tia, era a pessoa mais bonita do mundo.

No dia da virada do ano, fomos com minha mãe para a casa do meu irmão, que mora com a família. Foi lindo, ela amou ver os fogos na praia, a multidão, a ceia. Na hora da virada foi difícil ver todos aqueles casais se beijando, sendo felizes, e eu não poder ter aquilo ali com ela. Mas ela me olhou nos olhos e sorri. Percebi que ela estava pensando o mesmo que eu e só aquele olhar já era mais do que qualquer coisa. Era a certeza de que eu era amada e que juntas tínhamos os mesmos votos de Ano Novo.

Ao voltarmos para minha casa, minha mãe foi dormir e continuamos conversando na sala. Não sei se foi efeito da bebida, mas ela começou a me provocar, falando que minha mãe estava dormindo e tínhamos ficado sozinhas. Respondi que minha mãe acordava várias vezes à noite para ir ao banheiro e era arriscado. Ela continuava me provocando, de maneira bem intensa. Falei que se ela não se comportasse, eu daria um beijo de boa noite. Ela parou depois dessa promessa e fomos dormir. 

Antes de me deitar, ela já estava deitada, olhou pra mim e disse: “E o meu beijo?”. Eu me aproximei e dei um selinho, terno e rápido, e completei: “Espera o Rio…”

No outro dia, ela me acordou falando que dormiu bem melhor depois do beijo de boa noite e, claro, eu sentia o mesmo, e pensava que não era somente o selinho que queria ter com ela. Fomos comprar roupas, pois a mala ainda não havia sido achada. Fiz com que ela visse comigo Star Wars (sim, sou nerd). E ela, que estava muito relutante, acabou adorando e fazendo um milhão de perguntas sobre os outros seis filmes.

Chegamos ao Rio de Janeiro e fizemos todos os passeios turísticos. Era bem fim de noite quando voltamos ao hotel, tomamos banho e apagamos. Acordei no meio da noite e tentei acordá-la para aproveitar o momento, mas ela não acordou. Fiquei brava por que aquela seria uma das poucas oportunidades para dar um beijo de verdade nela.

Discutimos pela manhã. Falei que havíamos perdido nossa noite no Rio de Janeiro e ela chegou a ir sozinha para a piscina do hotel, enquanto fiquei no quarto. Ela voltou rápido e já veio subindo em cima de mim na cama. Uma atitude que nos meus mais profundos sonhos nunca imaginei que ela teria. Pediu desculpas e disse que estava cansada na noite anterior e não conseguiu evitar o sono. Ela dizia isso beijando meu rosto, vários pequenos e meigos beijos até chegar nos meus lábios. Não resisti. Foi a melhor manhã da minha vida, tanto que perdemos o café da manhã. 

Depois de ter finalmente vivido algo de verdade com ela, percebi o quanto era diferente e maravilhoso estar com alguém que amamos. Não tive nenhum peso na consciência. Nunca estive tão à vontade com alguém. Viajamos em seguida para Arraial do Cabo e Búzios. Fomos com meu irmão e a família. Visitamos praias lindas, passeamos de escuna e, sempre que não tinha ninguém vendo, nos beijávamos. Estávamos vivendo um sonho, parecia uma Lua de Mel. 

Se aquela manhã no Rio foi a melhor da minha vida, aquela noite no hotel de Arraial do Cabo seria definitivamente a melhor da minha vida. Nível de provocação: calcinha fio dental com estampa do Star Wars. Ela trouxe isso de Portugal, então comecei a refletir que ela já premeditava ficar comigo. Fiquei feliz por isso.

Ao voltarmos para São Paulo, descobrimos que a mala havia chegado. Ela a abriu e entregou os presentes para minha mãe e em seguida me chamou no quarto e me entregou um baú de madeira relativamente grande, visivelmente pintado à mão, para parecer medieval. Perto da fechadura do baú, havia algo escrito: “Baú de Shai Tai, há muito esquecido no tempo”. 

Eu não parava de pensar que ela havia tido todo aquele trabalho por mim. Ela sabe que sou nerd e adoro essas coisas. Na fechadura, um coração pequeno escrito: “Só abre com um beijo”. Nesse momento, pensei o quanto ela tinha programado tudo aquilo e que, se a mala tivesse chegado no mesmo dia, eu já teria descoberto que ela realmente estava determinada a ter algo comigo. Não tinha sido nada por impulso. Eu a beijei, mesmo sabendo que minha mãe poderia aparecer.

Abri finalmente o baú e dentro havia um ursinho carregando um coração com os dizeres “Amo-te muito”, barras de chocolate suíço, a camisa do meu time europeu preferido, várias cartas de um RPG que eu jogo, uma caneca do Star Wars, uma miniatura do Oscar (ela sabe que amo cinema) e uma bonequinha pop de uma personagem que eu adoro. Eu já estava quase chorando quando ela me disse que os papeis enrolados embaixo do presente não eram pra evitar que as coisas quebrassem. Ela pediu para desenrolá-los.  Quando abri o primeiro, vi que aquelas centenas de papeis continham os motivos de ela me amar. Não consegui conter o choro, só queria abraçá-la, beijá-la e ficar com ela, mas não fizemos nada por medo da minha mãe.  

A viagem continuou sendo maravilhosa. Saímos com meus amigos, ela se deu bem com todos, e eles viram como eu estava feliz. Estava apaixonada e boba, mas não era só paixão. Era um amor reprimido de 10 anos podendo finalmente ser concretizado. Parecíamos um casal de adolescentes. 

O tempo foi passando e quase fomos pegas várias vezes por minha mãe, mas conseguimos nos “salvar”. Acho que ela desconfia ou não quer acreditar, por que várias vezes nos sugeriu sair para paquerar.

O dia da despedida estava chegando e, na noite anterior, ela me abraçou chorando. Disse que iria voltar para o inferno dela e deixar no Brasil o paraíso. Não quero dormir essa noite, ela me disse. Queria ficar o tempo todo comigo. Eu estava anestesiada. Não queria acreditar que os 20 e poucos dias que passamos juntas no Brasil já tinham acabado. Adormecemos.

No último dia, fui acordada por minha mãe, o que era estranho, pois nos dias anteriores eu vinha sendo acordada com beijos escondidos e felizes. Minha mãe disse para eu ir falar com “a minha amiga’, pois ela estava chorando desde cedo. Eu me levantei e fui abraçá-la. Ela não parava de chorar e eu me contive para não fazer o mesmo. Prometi a ela que dessa vez não demoraríamos cinco anos para nos ver. Eu sabia que não poderíamos nos despedir direito no aeroporto, então a beijei ali. O nosso último beijo do encontro, o beijo de despedida profundo e doloroso, cheio de promessas de um reencontro breve.

Ao chegar no aeroporto, ela ainda chorava bastante e, pouco antes de vê-la embarcar, desabei. Comecei a chorar compulsivamente. Dessa vez ela me abraçou e disse: “Você estava tão bem, tão forte”. Mas não aguentei, a ficha caiu e percebi que minha felicidade estava indo embora, o meu amor estava indo para longe de mim. De novo.

Fiquei vendo o avião decolar e levar o meu amor para longe, para o frio, para a Europa. Cheguei em casa e em cada canto lembrava dela. Peguei os cremes hidrantes que ela deixou e tinham o cheiro dela. Que dor. Quando ela chegou em Portugal, nos falamos e ela me perguntou se era ruim estar triste por voltar para casa e ficar com a mãe. “Só serei feliz se estiver com você”, ela me disse.

Estamos planejando morar nos Estados Unidos. É tudo complicado, mas não impossível. Temos alternativas e todas elas se resumem em podermos ficar juntas. Por enquanto, continuamos com todos os problemas. A distância, o preconceito, o medo e a religião. Mas ela me faz feliz. Quando estou com ela, meu medo some, minha coragem aumenta. Essa é uma das mensagens que mais me motivou a continuar essa luta: “Queria você do meu lado todos os dias, como era quando estávamos no Brasil. Não aguento viver sem você na minha vida. Preciso escutar sua voz diariamente. Eu te amo muito e danem-se os rótulos. Quero ficar com você”.  Eu seria a pessoa mais infeliz do mundo se não buscasse viver ao lado dessa mulher todos os dias da minha vida.

O texto foi elaborado com base em depoimento enviado ao BlogSouBi
*Os nomes são fictícios para preservar a identidade das personagens