Estava no trabalho. Deixei as atividades de lado e fui pesquisar sobre assuntos homoafetivos. Encontrei o BlogSouBi. Acessei o chat e não demorou muito a aparecer duas pessoas em busca de papo furado. Perdi o interesse em ambas em poucos minutos.

Enquanto navegava no blog, aquela lista com os nomes dos participantes do chat aumentava, cada nome mais criativo que o outro. Nomes muito floreados nunca me chamaram muita atenção. E então surgiu a Renatinha. Ela iniciou a conversa educadamente.

Fui surpreendida com uma conversa bacana. Tínhamos quase a mesma idade, ela 29 anos e eu 30. Ela namorava há 11 anos, com idas e vindas, e estava noiva. Casamento marcado, buffet e apartamento comprado. Pensei: o que ela quer aqui, gente? Mas eu também namorava com uma mulher há três anos e havia decidido estar ali também.

Renatinha contou que já havia se relacionado durante um ano com uma mulher e estava ali para conversar sobre o assunto. Ela confessou que a vontade de uma experiência lésbica havia retornado.

Nos despedimos, sem marcar um novo papo. No dia seguinte, lá estava Renatinha novamente no blog. Iniciamos novamente o papo que, assim como no dia anterior, estava interessantíssimo. Começamos a nos conhecer melhor. Eu Engenheira e de Porto Alegre, ela Gestora de Negócios e de São Paulo.

Passados alguns dias, percebi que estava entrando no blog apenas para encontrá-la e ter novamente uma conversa agradável. Já nos conhecíamos por foto e já tínhamos o número de celular. Quando ouvimos a voz da outra por mensagens de áudio, percebemos que era preciso avançar. Projetei a ideia de viajar a São Paulo para conhecê-la.

Comprei as passagens. Ela precisou pensar na burocracia familiar que viveria quando eu chegasse, de forma que a permitisse ficar comigo. Não sabíamos muito bem o que estávamos fazendo e muito menos o que aconteceria após o meu retorno. O fato é que precisávamos nos ver, nos olhar e isso era mais forte do que qualquer outra coisa.

Jamais esquecerei da minha caminhada do metrô até a esquina da Consolação, bairro paulista, e de enxergá-la a poucos metros de mim. Lembro exatamente da roupa, do sorriso, do abraço e do cheiro daquela mulher que eu apertava contra o meu peito.

Ficamos juntas durante 23 horas, praticamente acordadas o tempo todo, inebriadas com o que estava acontecendo. Minha volta para Porto Alegre foi acompanhada de lágrimas, que duraram por três dias.

O mundo era outro depois daquele encontro. Eu não sabia de mais nada. Só pensava naquelas horas recém vividas. Voltar para a minha vida era o que de mais horrível poderia acontecer comigo. Só conseguia pensar nela e no que poderia fazer para vê-la outra vez. Meus dias foram tomados por um sentimento de dor, saudade e culpa.Passávamos o dia todo conversando e, para ambas, aquela experiência tinha sido a melhor de nossas vidas. Separadas por 1200 quilômetros de distância, não havia muito o que fazer. Os dias se passaram e tanto o meu relacionamento quanto o dela foram perdendo o sentido.Comecei a planejar as minhas férias para São Paulo. Eu precisava revê-la. Terminei o meu relacionamento e, antes que eu pisasse em terras paulistanas, ela veio a Porto Alegre para três dias incríveis.Após seu retorno a São Paulo, ela cancelou o buffet, o casamento e pôs fim ao relacionamento de 11 anos. Ela admitiu que não era um impulso, o relacionamento já não estava bom há algum tempo.Fui então surpreendida com uma demissão. Com o dinheiro da rescisão, comecei a me organizar. O meu intuito era morar em São Paulo. Ela voltou a Porto Alegre após um mês e ficamos durante cinco dias vivendo um amor inexplicável. Fui conhecendo aquela mulher e cada vez mais me encantava com seus trejeitos, manias e hábitos. Uma guria linda, com espírito leve, forte e cheio de energia. Desde o dia em que a vi, digo que consigo sentir sua positividade, mesmo de longe.Minha mudança para São Paulo já tinha data. Vendi tudo o que tinha: carro, computador, móveis. Comuniquei pai e mãe sobre a mudança, organizei o andamento da minha pós-graduação, me despedi dos amigos e fui.Cheguei a São Paulo e de lá pra cá, vivemos alguns processos importantes. Conheci família e amigos, trabalho, rotina e tudo o que compões o mundo dela. Após seis meses do início dessa história, nunca vivi algo tão gostoso, verdadeiro e cheio de vida.

Ela diz que namorar uma mulher é completamente diferente: complexo e intenso. Ela descobriu que vestimos o mesmo tamanho de calça. Ainda acho estranho pegar peças de roupas emprestado, mas já se acostumou a ouvir o secador de cabelo, a lidar com minha TPM e a apreciar que faço as unhas.

Nossa história começou por caminhos tortos, mas nossas intenções e ações são de um futuro promissor. Nossa mágica e sincronia, que iniciou de uma atração física, hoje se estende em todos os aspectos do relacionamento.

Moramos juntas há 9 meses e planejamos casar. A vida nos mostrou que é possível construir uma história linda, mesmo diante de um cenário em que o medo e a insegurança poderiam ter prevalecido.

A história foi elaborada a partir de um relato enviado ao BlogSouBi