Minhas amigas viviam falando do Tinder. Complicado encontrar alguém interessante, papos ruins e uma superficialidade difícil de encarar. Não achei que fosse desbravar o aplicativo de relacionamento tão cedo, apesar de alguns desejos que eu tentava conter.

Namoro um homem há quatro anos e estávamos bem. Sexo frequente e poucas brigas, o que indubitavelmente nos levava a uma relação harmoniosa. Sempre conversamos muito e procuramos ser o mais transparente possível.

Depois de uns dois anos de namoro, contei a ele sobre o meu desejo de estar com uma mulher. Tive medo da reação, mas foi um teste para descobrir a opinião dele. Não houve crise, mas também não vi uma abertura para realizar o desejo. Ele achou normal, mas não chegamos a ter aquela conversa em que ele simplesmente dizia: ok, você pode viver essa experiência.

Fiquei na minha por quase dois anos e o assunto ressurgiu em uma festa, quando vimos duas meninas se beijando. A cena mexeu comigo e reavivou o meu desejo de estar com uma mulher. Encarei o assunto novamente com Flávio*, mas de uma maneira mais enfática. Disse a ele que eu precisava viver uma experiência como essa e se pra ele tudo bem. Olha Laura*, acho que não tenho problemas com isso, mas obviamente existe uma insegurança da minha parte. Você pode sim viver essa experiência, não posso te prender. Se você tem essa vontade, melhor realizar. Mas vamos ver como você fica depois disso.

A preocupação dele era natural. Eu diria que muito válida, considerando que já tinha ouvido relatos de muitas mulheres que deixaram seus namorados e maridos depois de se apaixonarem por outras mulheres. Mas eu o amava e tinha certeza disso. Só precisava viver uma experiência diferente.

Instalei o Tinder na semana seguinte e selecionei a opção em que apareceriam apenas mulheres. Fiquei abismada ao descobrir a quantidade de mulheres no aplicativo. Nessas horas percebemos o quanto os estereótipos nos levam a grandes equívocos. Vi muitas que eu nunca imaginaria que poderiam se relacionar com outras mulheres. Pareceu empolgante. Divertido.

Algumas mulheres por quem me interessei também gostaram do meu perfil. Esperei para falarem comigo. Nada. Fui conversar com uma amiga bissexual para entender como funcionava o flerte entre mulheres. Ela contou que era natural. Muitas não puxam papo mesmo, elas ficam esperando.

Eu não tinha nenhuma prática com aquilo. Eu não sabia como abordar uma mulher, o que falar. E descobrir que elas não conversavam como imaginei me deixou ainda mais tensa. Pensei em desistir, mas a vontade era maior. Persisti e comecei a jogar alguns “ois” e esperar uma resposta gentil. Algumas vieram. Puxei mais assunto, tentei perguntar o basicão. Onde mora, idade, o que gosta de fazer. Depois tirei a pergunta da idade, porque lembrei que aparecia ali no aplicativo mesmo. Era uma pergunta inútil.

Percebi que muitas conversavam durante uns 30 minutos ou uma hora e depois paravam. Ué, será que falei algo errado? Relia algumas conversas. Tava tudo bem, dentro da normalidade. Mas que saco. Era difícil conseguir encontrar uma mulher interessante. Será que era problema do aplicativo? Decidi pesquisar sobre bissexualidade. Cai aqui no BlogSoubi. Mandei um e-mail perguntando sobre como isso funcionava. E a resposta foi a mesma da minha amiga. Não só no aplicativo, mas como em muitos outros lugares, não era tão simples ter uma troca rica com uma mulher. E o problema não era eu. Mas talvez o comodismo e a insegurança fizessem com que muitas não se arriscassem tanto.

Por que mulheres? Essa foi a pergunta que me fiz muitas vezes. Depois comecei a analisar que a minha situação também não ajudava. Quando o papo avançava um pouco e me perguntavam se eu era solteira, a minha sinceridade espantava. Tenho um namorado há quatro anos e decidimos abrir a relação. Eu entendo que muitas delas ficassem bravas. Afinal, a expectativa era outra. Elas queriam romance, uma experiência mais profunda, verdadeira. E claro que faz total sentido. Acho que se eu estivesse disposta a viver um novo romance também me frustraria em conversar com alguém na mesma situação que eu. Tenho ainda a consciência de que muitas pessoas podem criticar esse meu relato ao blog.

Mas muitos casais estritamente heterossexuais também abrem a relação e tá tudo bem. Não achei que eu deveria ser condenada por isso. Eu só queria viver uma experiência diferente e se alguém topasse ótimo, seria muito legal. E é exatamente essa transparência que procurei passar nas minhas conversas. Decidi que não mentiria para ter uma experiência legal e depois contar: olha, eu tenho namorado e cada um vai para o seu lado, tá? Definitivamente isso não seria legal. Então assumi o “risco” de apostar na abordagem sincera.

Depois de um mês e meio de tentativas frustradas e muitas mulheres bravas com a minha atitude curiosa, conheci uma mulher que era casada e estava disposta a viver a mesma experiência. O papo fluiu bem. Gostei das fotos, achei que ela também. E depois de umas duas semanas conversando decidimos nos encontrar. Morávamos relativamente perto, então o ponto de encontro não foi difícil. Um bar perto das nossas casas.

Coloquei um vestido, um salto, prendi o cabelo e passei uma maquiagem básica. Estava bem tensa. Era uma situação diferente e, apesar da ansiedade, estava um pouco desconfortável. Procurei não falar muito com Flávio sobre o encontro. Mesmo que ele soubesse, era algo meu, que eu não achava que deveria compartilhar integralmente.

Chegando no bar, mandei uma mensagem pra ela. Demorou uns 15 minutos até ela chegar. Nos cumprimentamos, percebi que ela também estava nervosa. Ela era mais alta do que imaginei. Simpática e bonita. Travamos um pouco no começo. Eu não sabia muito bem o que falar e ela muito menos. Mas à medida que fomos fazendo os pedidos e a os copos de cerveja foram aumentando, ficamos mais confortáveis. Ficamos no bar por três horas. Nos despedimos com um beijo na boca. Apesar da tremedeira inicial, foi bom, muito bom. Beijar uma mulher realmente era algo diferente. Um beijo macio, leve, gostoso.

Fui para casa achando tudo muito interessante, diferente. Tive vontade de dar um passo além, mas era tudo tão novo que eu não sabia muito bem como agir.

Cheguei em casa, Flávio estava lá. Ficou me olhando e perguntou como tinha sido. Foi bom, a menina era divertida. Mas e ai? Foi o questionamento dele. Contei tudo e disse que nos despedimos com um beijo.

Continuei trocando mensagens com ela e em muitos momento dos dias seguintes a cena me veio à cabeça. Perguntei se ela gostaria de me encontrar novamente. Ela topou. Da segunda vez fomos mais além, ainda um pouco tímidas. Nos encontramos em um lugar mais reservado. Foi diferente, um pouco estranho inicialmente, mas gostei. Por mais casual que fosse aquele encontro, a troca foi intensa.

Nos falamos de vez em quando e planejamos, em algum momento, um segundo encontro. Mas sem pressa, nem afobação. Nós já temos relacionamentos bem resolvidos e um segundo encontro seria apenas outro bom momento. E ele pode esperar.

O texto foi elaborado com base em relatos de algumas leitoras do BlogSouBi e unificado em uma história. Os nomes são fictícios