Nasceu homem. Assumiu e identidade feminina e voltou a se identificar como homem. Aos 47 anos, depois de vivenciar a vida em dois gêneros e se prostituir, o cearense Antônio Teixeira Benevides Neto mostra a sua história ao mundo em seu recém-lançado livro independente Mel e Fel, apresentado em fevereiro, no Museu da Diversidade Sexual, em São Paulo (SP).

Neto, como prefere ser chamado, contou a sua história ao BlogSouBi, de forma delicada e genuína, como vocês poderão ver no relato abaixo, em primeira pessoa.

Antonio-Neto-Mel-Fel

Fui criado por minhas tias. Ficava na companhia delas e de minha avó. Convivi em um universo muito feminino e fui me construindo na companhia dessas mulheres. Aprendi a admirá-las. Personalidades fortes, carinhosas. Trocavam de roupa na minha frente. Meu pai, quando presenciava aquele comportamento as recriminava, dizendo que estavam me induzindo a ser “bicha”. Vão acabar fazendo dele uma “bichinha”, é o que ele repetia.

Antonio-Neto-Crianca

O contato com o masculino, no entanto, foi traumático. Sofri abusos de um dos tios de criação na adolescência. Isso foi fazendo parte da minha natureza. Um dia perceberam o abuso desse meu tio e ele foi repreendido. O meu interior, no entanto, já havia sido modificado. Fui em busca de reviver essas sensações e experiências. Procurei no ambiente escolar, na vizinhança. Aos oito anos, já era uma criança erotizada. E eu me envolvia em situações diversas com os garotos. Na hora de trocar a roupa para fazer um esporte, ao urinar na rua. E, geralmente, com meninos mais velhos, cujos hormônios já estavam mais aflorados.

Lembro vivamente de uma cena engraçada no colégio. Eu, paquerando uma pessoa de longe, que era de outra sala. Passei uns dois ou três dias paquerando, cultivando aquele sentimento. A pessoa tinha um cabelo curtinho, uma boca bem carnuda. Era desengonçada, cheinha. Quando ela veio falar comigo, perguntei: você é menina? Ela respondeu afirmativamente. E eu me desinteressei na hora. Ela ficou sem entender. Muito cedo entendi o direcionamento da minha sexualidade.

Então, aos 12 anos, eu já estava vivenciando a minha homossexualidade furtivamente. Isso, nos anos 70, 80. Então fui repreendido pela família. Naquela época as cabeças eram muito mais fechadas. Entendi que eu deveria camuflar e esconder a minha identidade sexual, mas isso não me impediu de vivenciá-la.

Tentava me reeducar e adquirir uma forma mais discreta. O ápice dessa tentativa foi ingressar no exército. Acreditei que dentro daquele ambiente rústico e machista poderia mudar.

Os homens me abordavam, me davam carona. Mas era sempre tudo muito sexual e eu também ansiava por um lado emocional, que estava carente. Aos 13 anos, me apaixonei pelo primeiro homem. No mercadinho do meu bairro, havia um rapaz que me chamava a atenção. Ele me elogiava e isso fez crescer um sentimento dentro de mim. Eu ansiava por um relacionamento, porque eu não conseguia despertar um interesse mais profundo nos homens. Eram apenas encontros furtivos. Sempre acreditei que era por ser afeminado demais. Conheci meninos que namoravam, casais homoafetivos. Mas ambos eram sempre masculinos, sem “afetação”. E ao perceber isso, procurei me masculinizar, perder os meus trejeitos. Tentava me reeducar e adquirir uma forma mais discreta. O ápice dessa tentativa foi ingressar no exército. Acreditei que dentro daquele ambiente rústico e machista poderia mudar. Tentativa vã. Os rapazes me procuravam em momentos de lazer, quando tínhamos privacidade. Eles diziam se sentir atraídos por mim, pois tinha uma natureza afeminada. Aquilo me confundia. Eu não sabia qual postura adotar.

Antonio-Neto-JovemE então tudo ficou claro naquele momento: eu queria me identificar com o gênero feminino.

Aquela fase passou. Saí do exército e um novo mundo se abriu pra mim. Conheci umas travestis lindas. Rolou uma empatia. Eram femininas e perfeitas, a ponto de se passarem por mulheres. Tinham namorados, andavam de mãos dadas. Quando me deparei com essa realidade, pensei: é isso que quero pra mim. E então tudo ficou claro naquele momento: eu queria me identificar com o gênero feminino. Vi a possibilidade de ser como elas. Mas tive medo. Elas se prostituíam e não tinham muita clareza da própria realidade. Eu perguntava como era viver na noite e as respostas eram vagas: “É bom, a gente se acostuma”. E isso me gerava uma profunda insegurança. Uma vivência que eu não tinha coragem de experimentar. Incorporar o gênero feminino era uma vontade imensa, mas a única referência era de uma identidade marginal.

Mas eu não tinha nenhuma formação. Como ter uma vida confortável? Com o bullying que sofri na escola, me desmotivei e abandonei o colégio. Vi a prostituição como a única coisa que me restava para conquistar o que eu queria. Embora tenha relutado muito, acabei sendo dominado por aquela necessidade de transformação. Respirei fundo e levei o plano adiante.

Saí de Fortaleza e fui para São Paulo aos 20 anos. Um rapaz gay, de peruca na mala e um sonho no coração: vivenciar completamente uma identidade feminina. Tive logo que me adaptar à rotina. Às 22h já estava de peruca, maquiado, com as roupas emprestadas, na Avenida Indianópolis fazendo a minha estreia.

Agora eu era Nádia. Na primeira noite, fui instruída por colegas quanto cobrar, o que fazer, onde levar. Entrei no primeiro carro e fomos para um hotel. Percebi que o primeiro cliente já entendia bem a situação. E então veio a terceira, a quarta noite, e quando me dei conta, já estava vivenciado aquilo na minha rotina. Percebi a rivalidade com as outras colegas. Apesar da ajuda, também era um ambiente competitivo e hostil. Tínhamos que fugir da polícia com frequência. Na primeira semana, fui três noites para a delegacia. Eu poderia ter desistido, não fosse o meu novo foco: as europeias. Eram travestis lindas, que já haviam trabalhado na Europa. Elas eram lindas, siliconadas, com carros do ano. Bens, apartamentos. Então percebi que poderia valer muito a pena passar por tudo isso. Eu seria como elas.

Nadia-Mel-Fel

Mas eu ainda não tinha minha beleza construída. Ainda era um rapaz em busca de dinheiro para fazer as cirurgias. E essa constituição física não me rendia noites tão lucrativas. Eu havia apenas tomado hormônio feminino, anticoncepcionais injetáveis, que adquiríamos facilmente nas farmácias. Isso me ajudou na transformação inicial, mas não fiquei muito tempo nesses hormônios, pois eles limavam a minha libido.

Quando a noite estava findando, alguns clientes me paravam com propostas que me parececiam tentadoras. Eu faria o programa e me pagariam o quádruplo se eu usasse drogas com eles. Acabei me sujeitando e me viciando. Conheci a cocaína, o crack. Foi um ano e meio de muitas drogas. Quando me dei conta do caminho nefasto que havia me envolvido, me empenhei para me livrar dele.

E então o meu novo foco foi a busca por um amor. Queria ser amada e encontrar um rapaz que gostasse de mim, já que na minha adolescência eu não conseguia despertar o interesse dos gays. Por ter essa necessidade, acabei me envolvendo com garotos, que me prejudicaram. Eles me faziam gastar o meu dinheiro. Eu os mantinha – pagava moradia e alimentação. Passei anos distraído com esses amores.

Eu já tinha recorrido a procedimentos estéticos. Implantei prótese, silicone industrial. E então, aos 32 anos, surgiu a oportunidade de ser uma “europeia”. Conheci uma travesti que iria financiar a minha viagem. Firmamos um contrato: eu trabalharia para ela até acumular a soma de 8 mil dólares. Demorei seis meses para pagar a dívida e só depois comecei a juntar o dinheiro. Voltei depois de um ano para o Brasil. Comprei meu primeiro carro. Continuei trabalhando nas mesmas esquinas, mas constatei que seria mais rápido acumular um novo montante de dinheiro voltando para a Europa. A segunda viagem foi por minha conta. Já tinha feito meus contatos e não precisava adquirir outra dívida. Tive um lucro bem melhor.

 Voltei novamente para a Europa até acumular uma boa quantia. E então já tinha em mente que a prostituição era uma situação temporária.

Depois de mais uma temporada, regressei para Fortaleza e investi em um imóvel. Voltei novamente para a Europa até acumular uma boa quantia. E então já tinha em mente que a prostituição era uma situação temporária. Era uma atividade lucrativa, mas nunca encarei com muita naturalidade. Mas eu sabia que era a forma de adquirir segurança e estabilidade econômica e tentava fazer dessa situação algo proveitoso e positivo, sempre me preparando para o momento de parar. Nunca escondi da minha família o que eu fazia. Eles precisavam saber para que refletissem: será que poderíamos ter feito algo?

Outro foco que me fazia querer parar era um sentimento que nutri por um rapaz paulista. Nós sempre mantivemos contato, embora eu ficasse longas temporadas fora. Preservamos a promessa de um relacionamento futuro, o que me permitiu persistir ainda mais nos meus planos. Então eu não me permitia momentos de lazer com as colegas no exterior. Passei por vários países, entre eles França, Bélgica e Luxemburgo.

Quando regressei a São Paulo para viver a promessa desse romance, já com uma boa quantia, me matriculei em um curso de banho e tosa. Gostava muito de animais. Investi meu dinheiro em um pet shop. Nem o negócio e nem o relacionamento deram certo. A relação se deteriorou e não tivemos maturidade para seguir em frente.  Voltei para a Europa para me capitalizar novamente. Enquanto me capitalizada, adquiri três imóveis em Fortaleza.

Fiquei 20 anos me identificando com o gênero feminino e passei a questionar Nádia

E então surgiu uma reviravolta interna. Comecei a questionar a personagem que eu havia construído. Fiquei 20 anos me identificando com o gênero feminino e passei a questionar Nádia. Eu havia me tornado uma mulher deslumbrante, alegre, engajada. E agora não a reconhecia. Tentei negar esse novo sentimento, mas ele ia e voltava com força. E vinha com mais força e mais força. Ser Nádia já não me dava as mesmas satisfações.

Até que chegou o momento em que eu não pude mais me esquivar. Da mesma maneira que aos 20 anos não me reconheci como homem, aos 40 já não me reconhecia como mulher. Em 2011, aos 42 anos, tirei as próteses mamárias. E essa foi a minha mudança, pois nunca cheguei a fazer nenhum transformação em meu órgão sexual.

Feita a retirada das próteses, me matriculei na academia e passei a ganhar contornos masculinos e músculos. Nos primeiros anos, as pessoas olhavam uma mulher querendo ser homem. Fui confundido com uma lésbica. As pessoas me tratavam por senhora. Mas eu já sabia que essa mudança era dolorosa e aos poucos as coisas iriam acontecer. E então, quando assumi a nova forma, começaram a me chamar novamente de “ele”.

Passei a me manter dos alugueis dos meus apartamentos. Voltei a estudar . Fiz matrícula em um supletivo de 18 meses em Fortaleza e consegui me dedicar aos estudos sem as crises existenciais e a intolerância familiar, já muito bem resolvido. Como não precisava trabalhar e tinha renda, foi possível me dedicar a esses estudos como eu queria. Tive êxito e, pela primeira vez, fui reconhecido como bom aluno. Se antes eu era valorizado por ser uma travesti bonita, passei a ser valorizado por minha capacidade intelectual. Isso me mostrou outros horizontes.

livro-mel-e-felTerminado o supletivo, fiz o curso de Turismo e conquistei um emprego em uma recepção de hotel. Tive minha carteira de trabalho assinada pela primeira vez, aos 44 anos. E então fui voltando a me sentir parte integrante da sociedade. Na prostituição, eu me sentia marginalizada e sempre ansiava por essa mudança. Se as pessoas me perguntam se tenho saudades de Nádia, que tinha sucesso e adquiria imóveis, digo que adoro minha nova vida.

Com todo esse aprendizado, tive o desejo de contar a minha história. Embora eu não ache que seja um exemplo para outros e outras, acredito que ao escrever um livro e contar essa história ao BlogSouBi possa ajudar pessoas que sentem o mesmo que eu senti. Uma trans entrou em contato comigo recentemente, ao ter acesso ao meu livro. Ela confessou estar vivendo na mesma situação. Disse estar com medo e quis me encontrar. Eu a conheci e esclareci todas as dúvidas.

Hoje, ao lembrar de Nádia, penso que não foi uma mudança motivada por desilusão ou tristeza. Talvez tenha sido por um conjunto de coisas. Mas um deles é muito claro: eu tinha o anseio de ser amado por um homem. Ninguém é motivado apenas por uma questão. O que posso dizer é que sou muito grato a ela, a tudo o que ela me proporcionou.

Sei que agora eu não quero mais ser Nádia. E não é um sentimento de arrependimento ou frustração. Agora não preciso mais esconder meu órgão na praia, nem aparar meus pelos ou ter preocupação com o apelo sexual. Quando nos tornamos travestis, buscamos uma liberdade de viver da forma que queremos, mas, aos poucos, isso pode se tornar uma armadilha, porque vamos perdendo a liberdade. Ser mulher é ser cobrada, vigiada. Para o homem, tudo é tolerável. Quando compreendi tudo isso, consegui me desprender. E pude me deitar com outro homem sem precisar desempenhar um papel feminino. No entanto, posso dizer que fui bem resolvido em ambos os gêneros.

Ainda não encontrei o meu grande amor, apesar de ter sentimentos afetivos por um homem. É uma relação bonita, mas vista de maneira mais madura, sem as ilusões de outrora.