Trecho do livro Amora, de Natalia Borges Polesso, vencedora do Prêmio Jabuti 2016, na categoria Contos

Amora-Natalia-borgesNunca tinha transado com uma mulher e tinha decidido que seria comigo. No dia em que isso aconteceu, nós nos encontramos na frente do prédio da faculdade. Ela me disse que estava cansada de esperar e me perguntou por que é que eu nunca tinha dado em cima dela, se ela tinha algum problema.

Eu disse que nada daquilo e que, ao contrário, achava ela muito atraente, só que nunca tinha pensado que havia qualquer interesse ou coisa parecida acontecendo entre a gente. Disse também que no dia da festa, quando nos conhecemos, eu achava que ela estivesse pouco sã e, como não tinha esboçado nenhuma vontade mais, pensei que as coisas parariam naquela instância. Ela ficou irritada e me chamou de idiota por não ter percebido o quão a fim ela estava.

Festa de faculdade onde se come salchipão e se toma cerveja morna ou vinho em copo de plástico. Dois meses, de aula e o diretório acadêmico resolve fazer uma confraternização, ainda bem. Estaca começando a ficar muito estranho encontrar todos durante o dia, sóbrios, tomando um cafezinho ou correndo para a sala de aula.

Na noite da festa, como era de se esperar, teve fiasco, bebedeira e muita vergonha para sentir nos dias que se passaram. Não da minha parte, é claro, eu sempre fui muito comedida. Fiquei a festa toda no mesmo canto, com a Martinha. Até ali havíamos trocado algumas palavras, sob estranhas circunstâncias, mas nada substancial. Depois de alguns copos de cerveja, natural que me pareceu bem ficar ali o tempo todo, apenas com ela.

Na verdade, eu não me lembro de mais ninguém naquela noite. Lembro de saber que alguém tinha traído alguém no mesmo banheiro em que um terceiro, logo mais, haveria de vomitar todo. Lembro de um azulejo quebrado e da basculante solta na entrada. E lembro também de um professor tentando a muito custo dar uma carona para uma aluna. Mas nomes e detalhes relevantes não ficaram na minha memória propensa a se distrair. Martinha foi o que me encheu os olhos e os ouvidos. E quando já trocava as letras e não parava muito bem em pé, eu sugeri que fôssemos embora. Coloquei-a num táxi e segui em outro, porque morávamos para lados opostos. Eu vi a Martinha tapar a boca antes de dizer o endereço ao taxista. Vi seus olhos correrem contrários à paisagem.

A noite poderia ter acabado assim, se a Martinha não tivesse descido do táxi e corrido na minha direção um segundo antes de eu embarcar. Ela deu uma risada estranha e sugeriu que fôssemos a outra festa. De um amigo. Ela prometeu que passaria lá, esqueceu, e agora ligava sem parar. Insistiu que eu fosse com ela. Eu disse que tudo bem e a fiz prometer que me lembraria de ligar para o cardiologista.

Poderia ter sido simples, mas não foi. Quando a enfermeira resolveu me passar as urgências e pedir um eletrocardiograma, eu vi os olhos da Martinha se arregalarem e eu tenho certeza de que pensou o que estava fazendo lá uma pessoa que mal conhecia e que podia morrer ali naquela hora. Mas estava cansada e deveria estar com uma cara terrível, o que deve ter ajudado a Martinha a criar a cena na cabeça dela. Antes da aula, naquele mesmo dia, eu passei muito mal. Tive uma arritimia estranha e precisei ser atendida no hospital da universidade. A Martinha não teve escolha, a professora apenas mandou-a me acompanhar. Passei para uma sala e uma enfermeira me pediu que eu levantasse a blusa, tirasse os sapatos e arregaçasse as calças. Eu já conhecia o ritual, eu já tinha feito quinhentos eletrocardiogramas e eu também sabia que meu coração tinha se normalizado e que não havia mais nada que pudesse ser feito, a não ser esperar e descansar. Levou o resultado para uma média na sala ao lado que logo veio falar comigo.

- Tu está se sentindo melhor?
- Sim. Estou. Na verdade eu tinha WPW
- Ah, Wolf. Mas tu disse que tinha…não tem mais.
-  Não, fiz uma cirurgia de ablação por radiofrequência que aparentemente não deu certo, ou eu tinha outros problemas não diagnosticados que só agora estão dando sua graça, como arritimias supraventriculares.
- Hmmm, ou alguém gosta de se informar ou é hipocondríaca.
- Acho que as duas coisas.
- Então, tu tem essas taquicardias com frequência?
- Na verdade não, eu fiz essa cirurgia dois anos atrás… cirurgia, procedimento, não sei. Sei que estou curada, ou estava.
- Teu eletrocardiograma está normal
- Eu imaginei. O coração precisa ser pego de surpresa para ser incriminado.
- Exatamente.
- E o que eu faço?
- Vamos te deixar em observação por algumas horas e, se continuar tudo bem, tu pode ir embora.
- Ah, certo… posso falar com minha acompanhante.
- Claro, eu peço para chamar. E a Andressa vai te mostrar a salinha de observação.
- Ok, obrigada.

A Martinha quando me viu deitada na maca fez a pior cara de pavor que eu já tinha visto. Eu disse que estava tudo bem e contei a ela todo o meu histórico com síndromes cardíacas e ataques de ansiedade. Outra mentira, quando chegamos na festa da faculdade, ela já sabia um bocado sobre mim, porque achei que seria conveniente dizer alguma coisa que apagasse aquela expressão de medo da cara dela. Então, contei sobre o meu nascimento.

Contei que fui sozinha de ambulância para Porto Alegre e que meus pais vieram depois. Contei que passei vinte dias num CTI com cateter na cabeça e que achava que era por isso que minha mãe não havia me amamentado e por isso agora não tomava leite e brinquei dizendo que talvez por isso fosse gay. Quando eu disse que era gay a Martinha ergueu as sobrancelhas como quem não esperava uma informação daquelas diluída no meio de problemas cardíacos e histórias de nascer.

Passamos o resto do dia juntas, e no fim da tarde, ela se lembrou da festa do curso. Eu não tinha muito  o que falar e queria apagar aquele dia ruim de hospital, tirar aquele cheiro de falsa assepsia do meu corpo. Pensei que seria uma boa. E fomos. Tudo foi bem, até a chegada da segunda festa.

Ela estava em pé perto da sacada e observava, cansada, o movimento da rua. O apartamento estava cheio. Era uma daquelas festas de amigo de um amigo de um amigo e nós duas lá éramos apenas outras. Tínhamos passado o dia juntas, mas á sempre aquele constrangimento próprio de uma coisa que ainda não é bem possibilidade nem de amizade, nem de nada, a não ser a salvação do desconhecimento. De longe, tentávamos adivinhar nossos humores. Eu quase alheia, ela talvez mais. A terceira taça já pela metade quando ela passou e, sem dizer nada, me levou pela mão até um dos quartos. Fechou a porta rapidamente com o peso do meu corpo e, com os braços estendidos, circunscreveu-me.

- Quero te beijar.

Me disse enquanto olhava incisiva dentro do meu silêncio e desviava o rosto para o lado da janela.

- Quero, mas não vou, se tu não quiser.
- Não consigo te olhar.
- Não precisa.

 Colocou a mão sobre os meus olhos e encostou a boca quente em meu pescoço.

 - Tu tem o cheiro que eu imaginava.

A continuação pode ser lida no livro Amora. A autora autorizou apenas a publicação de um trecho do conto em virtude dos direitos autorais da Não Editora, responsável pela impressão da obra.