Namoro um homem há nove anos, desde os meus 18. Sempre tive admiração por mulheres, mas nunca tinha me apaixonado por uma. Há quase dois anos me surpreendi ao conhecer uma amiga do meu namorado. Era uma festa de despedida de solteira de uma amiga. Em dado momento, meu namorado e o amigo dele apareceram com ela na festa. Fiquei um pouco incomodada. Ela era muito bonita. E simpática. Nunca tivemos nada e acabamos nos tornando amigas.

Mas essa vontade do toque feminino continuou dentro de mim. Um dia fui com meu irmão, que é gay, em um bar. Eu, ele e o namorado dele. O meu namorado não quis ir, estava cansado. Quando chegamos, a música ainda não havia começado. Estávamos sentados, esperando o início da movimentação. Ela entrou. Sentou na mesa do DJ e começou a trocar algumas música. Admirada, porque música é a paixão da minha vida, comecei a observá-la com atenção, não tirei os olhos dela.  Minha amiga, que chegou um pouco depois, percebeu meu interesse,  disse que eu não estava conseguindo disfarçar.

Minha amiga, sem me contar, perguntou sobre a DJ a um amigo dela, que a conhecia. Descobriu que Samantha, agora eu sabia o nome dela, era casada com uma mulher. Mesmo frustrada com a informação, não deixei de ficar interessada, queria conhecê-la. Mas não tomei nenhuma atitude. Dancei a noite toda, bebi e curti as músicas, sem tirar os olhos daquela mulher. Fiz amizade com as pessoas do bar e combinamos de frequentar o local todas as quintas.

Na quinta seguinte, estávamos lá novamente. E para minha sorte, Samantha também estava. Dessa vez, ela me encarou muito, não tirou os olhos. A noite findou e novamente nada aconteceu. Fiquei algumas semanas sem frequentar a bar e, passado esse tempo, tive oportunidade de ir novamente. Fui com uma amiga, meu irmão e meu namorado. Minha amiga tinha acabado de terminar o namoro, precisa conversar e se distrair. Enquanto conversávamos, ela reparou que Samantha me encarava muito. Quis brincar um pouco com a situação: começou a me abraçar e a olhar para a moça, se divertindo com os olhares trocados e aquele clima intenso e curioso. Mas novamente nada aconteceu.

A primeira conversa

A semana passou e quinta, como de costume, fui novamente para o bar. Sempre convidava meu namorado a ir, mas ele nunca demonstrava interesse. Foi nessa noite que conversei com ela pela primeira vez. Encontrei um bom assunto para engatar um papo. Comentei sobre um projeto de soul e R&B, sabendo que ela tocava bateria em uma banda. Perguntei se ela tinha alguma indicação.

Foi uma conversa rápida, sem muita intensidade. Mas foi um bom motivo para que a nossa troca de olhares ficasse ainda mais forte nas semanas seguintes. Sem saber disfarçar, eu sempre sentava na frente dela. E conversávamos de vez em quando, sem tocar no assunto esposa e namorado.

Certo dia meu namorado topou ir. Cheguei mais cedo. Um amigo em comum contou para Samantha que o meu namorado estava chegando. Ela pareceu surpreendida, perguntando seu eu era heterossexual. Meu amigo respondeu que era só porque ainda não tinha experimentado o outro lado. Ele disse que Smantha fechou a cara e continuou tocando. Mesmo na presença dele, ela não conseguiu tirar os olhos de mim. Ele percebeu e comentou, quando fomos embora. Ele disse, em tom de brincadeira, que só teria medo de uma pessoa no bar me roubar, a DJ, que não parava de me encarar. Ri e disse para ele deixar de besteira. Respondi que ela era casada e que não fazia sentido algum aquela observação.

Era o último dia de Samantha no bar. Não tocaria mais, pois tinha uma viagem marcada. No domingo, ela me manda uma mensagem, pedindo para ir na cada dela. Fiquei um pouco chocada. Era para comemorar o aniversário da esposa. Até então, nunca havíamos comentado sobre nossos relacionamentos. Decidi ir ao aniversário.

O aniversário da esposa

Conheci muitas mulheres bacanas por lá. E tentei não pensar nesse turbilhão de sentimentos que me invadia. Meu amigo, que era esse nosso amigo em comum, chegou com uma cara estranha, querendo me contar algo. O que foi? Perguntei. Ele respondeu: não tenha um treco, tá bom?

Então ele contou a conversa que teve com Samantha: “Quando experimentar mulher, o mundo dela vai cair, mas está difícil passar por debaixo do arco-íris”. Ele respondeu que para eu curtir, teria de ser uma mulher boa de cama e que gostasse de mim. No mesmo instante, ela respondeu: “Ah, se eu não fosse casada”.

Meu coração disparou quando ele revelou aquela informação. Voltei a ficar inquieta, mas tentei ignorar tudo aquilo, como se nada tivesse acontecido. Cantamos bêbados e seguimos a noite. Conversamos muito, rimos. Foi uma noite maravilhosa.

Ela foi viajar e só nos encontramos na despedida do namorado do meu irmão, que também estava de partida para o Peru. Conversamos bastante, com respeito ao meu namorado e com a esposa dela. Quando eu estava indo embora, ela me perguntou: “Qual é a do seu namorado, que sempre chega e te leva embora rapidinho?”. Dei risada e respondi que geralmente tínhamos outros compromissos. Ela deu um sorriso e nos despedimos.

Na semana seguinte, combinamos de ir ao show do Ed Sheeran. Ela com a esposa, eu com meu irmão. O meu namorado, pra variar, nunca animava de ir. Sem ingressos, ficamos curtindo do lado de fora. Foi ótimo. Conheci melhor a esposa dela, muito gente boa. E resolvi tentar não pensar mais nela com outros olhos. Mas não consegui. Não consigo controlar esse sentimento, que só foi crescendo.

Sempre fico pensando em uma maneira de encontrá-la. Ela voltou a tocar. E sempre vou ao bar e rola a típica situação. Ela vai ao banheiro, eu vou ao mesmo tempo. E vice-versa.

Um turbilhão me invadiu…

E então ela estava no palco. Tentava ajustar uma caixa de som. Ela me deu a aliança para segurar. A caixa de som não queria funcionar. Com um sorriso amistoso, segurando a aliança, tentei ajudar. Vi dois fios partidos. Olhei ao redor e pouca gente estava no local. Ela não queria desistir. Tinha vontade de tocar, uma paixão incrível pela música. Na procura de uma solução, fomos para o andar de cima. Eu ainda com a aliança. Devolvi com um sorriso, sabendo que meu sentimento seria apenas meu, guardado e sempre disposto a um sorriso.

Eu me sentia como uma caixa de som vibrando com um grave. Meu peito ressoava em minha mente. Com os corpos sempre próximos, nos vimos sozinhas, guardando os aparelhos de som. Disse com maneira calma: “Se não fôssemos comprometidas, existiria algo aqui, não é mesmo?. Com o coração batendo mais rápido que asas de um beija-flor, senti seu corpo se aproximando, como se não conseguisse mais se segurar. E então respondeu: “Existe algo, mas não podemos”. Minutos após resistir, olhou em meus olhos, pressionou levemente o meu corpo contra a parede. Senti seus lábios tocando meu rosto, insistindo em ficar ali. Não mais pensando nos outros, em nossos relacionamentos, virei levemente o rosto e senti meus lábios encostarem nos dela. Meu corpo já não mais existia. Um fluído de calor e nervosismo subia na minha cabeça. Senti que aquilo era o certo, apesar de não ser ético.

Minha cabeça explodia, como aqueles pirulitos que estalam na língua. Corremos para um bar na esquina, como duas adolescentes. Enquanto eu beijava os ombros dela, sentia seu corpo em minhas mãos. Não queria tirá-las de lá. Estávamos só nós duas, naquele mundo, só nosso. Ela me olhava e sorria a todo o momento, enquanto eu a abraçava, colocava as mãos em seu corpo, nas pernas e por fim nos seios.

Abri os olhos, um pouco sonolenta. Tudo não passara de um sonho. Foi tão vívido que acordei sentindo o cheiro dela. Estava com o coração acelerado. Minha mente já não conseguia parar de pensar nela. Sei que ela é casada e que a esposa é realmente muito boa pra ela. Sei que namoro e me sinto estranha e má por sentir tudo isso. Mas vivo presa nesse momento em que digo e pergunto o tempo todo em minha mente: “E se não fôssemos comprometidas?”.

Nossos olhares transmitem mais do que expressamos uma a outra. Estou evitando encontrá-la em situações em que estejamos sozinhas. Mas me pergunto sempre pensando novamente: “E se?”.

Cada dia que te vejo não sei se quero perder esse controle ou manter essa sensação e a ilusão de que poderia ter dado certo. Creio que essa história seja apenas uma daquelas que realmente não era para ser. E se?

O texto é uma adaptação de uma história real enviada ao BlogSouBi. Os nomes são fictícios e leitora pediu para não ser identificada.