Sou uma garota de 18 anos. Estou namorando sério uma menina e decidi contar aos meus pais. Minha mãe não aceitou, mas disse que respeita. Com meu pai, tudo virou um inferno. Ele disse que se me ver com ela, vai bater em mim. Estou proibida de sair de casa e de ir a qualquer festa. Não sei mais o que fazer.

Esse é um tipo de relato comum recebido pelo BlogSouBi. Um dos primeiros problemas enfrentados por quem quer se assumir homossexual (ou bissexual) é a reação dos pais. O preconceito, muitas vezes, começa dentro de casa.

Há quase três anos recebi um e-mail furioso de uma mãe. Ela descobriu que a filha acessava o blog e ficou indignada. Nas palavras dela eu deveria me colocar no lugar das mães “que esperavam outras escolhas para os seus filhos”. E a resposta é a mais clichê de todas: não é uma escolha amar alguém do mesmo sexo.

Muitos pais rejeitam essa ideia, pois foram criados com pensamentos equivocados. Nem sempre é culpa deles, mas falta empatia. Os pais, que deveriam ser o porto seguro dessas pessoas, em muitos casos, se tornam pesadelos.

Os homossexuais então passam a não se sentir seguros em nenhum ambiente – às vezes só entre poucos amigos. Não podem ser eles mesmos em suas próprias casas, nas festas de família, em casamentos, nas ruas. São obrigados a se reprimirem.


Pais realmente respeitam homossexuais?

Também tem os pais que “respeitam, mas não aceitam“. São do tipo: “Ah, você pode levar a sua namorada para o jantar de família, mas não pode beijá-la, tá bom? Não faça nada que possa nos envergonhar”.

Como isso pode ser um tipo de respeito? Se qualquer pessoa da família pode dar um selinho no parceiro, por que o homossexual, simplesmente por ser homossexual, não pode fazer o mesmo? É um preconceito velado.

Pais precisam apoiar seus filhos. Procurar entendê-los. Dialogar. Não ouvir o que os outros falam aí fora e sim entender o que se passa dentro de seus filhos. Acham mesmo que eles “escolheriam” viver uma vida em que vão sofrer e serem rejeitados?

Essa falta de compreensão tem causado muitas mortes. No mesmo ano que recebi a reclamação da Suely, a mãe que ficou indignada ao descobrir que a filha acessava o blog, um pai espancou seu filho de oito anos até a morte por considerá-lo afeminado.

Neste ano, uma mãe compartilhou um vídeo nas redes sociais contando que foi agredida em um shopping em Brasília por acharem que sua filha era uma namorada.

E essas tragédias não param de acontecer no Brasil. Estamos no país que mais mata LGBTs pelo mundo. São reflexos da criação de pais que quando não têm um filho homossexual ensinam os seus filhos a odiarem essas pessoas. A cultura do ódio está cada vez mais forte.

Ela virou, inclusive, bandeira política. Alguns políticos têm conquistado eleitorado ao bradarem contra LGBTs. Onde queremos chegar com isso? Como os pais acham que seus filhos irão reagir a essa repressão? Infelizmente irão se afastar. Ou vão mentir dizendo que não são mais gays – porque é impossível deixar de ser.

Repressão contra gays causa morte e sofrimento

Todos que tentaram se reprimir, depois contaram como é esse sofrimento. É o caso de um pastor que criou um grupo para tratar homossexuais. Depois de 18 anos tentando promover a “cura gay”, ele se aceitou. Ele atraía homossexuais em baladas e também em igrejas, onde sabia que havia presença de gays em sofrimento. Ele sabia que era homossexual, mas achava que era uma doença e decidiu lutar contra. Tudo mudou quando conheceu o homem de sua vida. Engatou um relacionamento e afirma se sentir completo e realizado. “Não me arrependi um dia sequer de ter me assumido gay. Sou absolutamente feliz ao lado do meu companheiro e da minha família. Cura gay definitivamente não existe”, afirmou à revista Veja.

Esse não é o único caso. Outros líderes de centros de cura gay já passaram pela mesma situação. Alan Chambers é um deles. Líder de uma das maiores comunidades cristãs do mundo, ele pediu desculpas à comunidade LGBT depois de “causar tanto sofrimento” combatendo a “cura gay”. Ele escreveu que por muitos anos omitiu a sua atração por pessoas do mesmo sexo.

Há ainda pessoas que deixam de se relacionar sexualmente por não se aceitarem. Essa mulher tentou deixar de ser lésbica por quase 40 anos. Virgem, ela beijou apenas uma vez, na adolescência. “Tentei suicídio duas vezes. Surgiram os ataques de pânico e depressão. Passei por psiquiatras e psicólogos que só me irritavam. Nada melhorou”, contou uma mulher que não quis ser identificada ao BlogSouBi. Ela fez retiros, seminários, jejuns, orações e até sessões de exorcismo para se livrar da homossexualidade. Obviamente, nada funcionou.

São pessoas que se reprimem na tentativa de serem aceitas por seus pais, amigos e pela sociedade. Quando não conseguem essa aceitação, algumas delas não suportam o sofrimento e deixam de ver significado na vida. Esse caso é retratado, por exemplo, no filme Orações para Bobby, em que uma mãe rejeita seu filho homossexual. Bobby vivia em uma casa extremamente religiosa e homofóbica. Quando a mãe ficou sabendo de sua homossexualidade tudo mudou dentro de casa. Bobby começou a viver um grande sofrimento e a mãe não percebeu que, aos poucos, o filho começou a definhar.

Felizmente muitos pais não deixam chegar a esse ponto crítico e percebem que podem estar ao lado deles. Recebo muitos relatos de pais e filhos que tiveram experiências muito positivas na família. Os pais, no começo, não aceitavam a homossexualidade do filho, mas procuraram entendê-los. A conexão de muitas dessas famílias se tornou ainda mais intensa. Eles fizeram do ambiente familiar um local seguro e de acolhimento. E é o que justamente o que uma casa deve ser: um lugar para ser quem você é e celebrar o amor de todas as maneiras possíveis.

Então, como introduzir o assunto com os pais?

Primeiramente, tenha em mente que se os seus pais são religiosos ou têm preconceito, você provavelmente enfrentará problemas no início. Alguns pais citam passagens bíblicas, outros, como o caso real retratado no início do texto, proíbem de sair de casa e ameaçam bater.

Há chances, no entanto, de eles aceitarem ao longo do tempo. Se eles forem abertos ao diálogo, tente mostrar filmes, textos e apresente pessoas de confiança para falar sobre o assunto. Já vi casos em que uma mãe de um amigo homossexual ajudou outra mãe a entender.

Se você for adolescente, a situação pode ser pior, pois você ainda mora com eles. Se eles forem muito fechados ao diálogo e estiver muito claro para você que eles não vão aceitar e a sua vida se tornará um inferno, talvez seja o caso de esperar um pouco para contar. Muitos aguardam até conquistarem independência financeira, infelizmente.

Mas se decidir contar, seja natural. Não fale como se a sua orientação sexual fosse um pecado (apesar de muitos acharem que é). Mostre o quanto está feliz em poder desabafar e compartilhar isso com as pessoas que mais ama. Isso não pode ser um fardo, mas esteja preparado.  As reações dos pais podem surpreender – para o bem ou para o mal. E você vai precisar lidar com isso.

Assim como os seus pais, nem todo mundo vai te aceitar. E tudo bem. Você não precisa da aprovação de todos para viver a sua vida. Mas não deixe de vivê-la, como muitas pessoas fizeram. Ao aceitar a sua homo ou bissexualidade, você se sentirá mais leve e realizado, assim como todos os relatos que já recebi. Quando eu, Amanda, aceitei que gostava de mulher e me permiti viver isso, sem dúvida me tornei uma pessoa muito mais completa e realizada. Espero que aconteça o mesmo com você.