Antes mesmo de conhecê-la pessoalmente eu já estava apaixonada. A gente se conheceu nesses aplicativos que eu achava totalmente distante da minha realidade. Nunca imaginei que eu conseguiria conhecer alguém realmente interessante no “mundo virtual”.

Mas as minhas amigas insistiram – elas sempre insistem, né? Eu tinha terminado um namoro recentemente e não estava bem. Na verdade, eu achava um pé-no-saco ficar passando o dedo na tela do celular pra encontrar uma mulher que soubesse ir além do “oi”.

Então apareceu a foto dela. Hum, parece inteligente, descolada. Tem um sorriso bonito. Ah, também gostei da roupa e desse vestido da outra foto. Deixa eu olhar os gostos: nossa, temos muito em comum. Puxa, eu amo essa série também.

A frase que ela colocou no perfil não é assim tão elaborada, mas está ok. Vale um like.

Deu match! Ela também gostou do meu perfil. Deixa eu dar um oi.

A conversa inicial foi superficial, mas achei que valia a pena insistir. E foi uma decisão acertada naquele momento. Os dias foram passando e a frequência dos papos aumentou.

Começamos a nos falar todos os dias. Minhas amigas começaram a me pressionar.

– E aí, já se encontraram?

– Calma, ainda é muito cedo.

– Mas vocês já estão se falando há quanto tempo?

– Uns três meses.

– Uau, mas já está na hora de se encontrarem. Deixa eu ouvir um áudio dela.

– Nunca ouvi a voz dela.

Minha amiga me olhou. Deu aquele sorriso sarcástico que odeio. Eu sabia o que viria pela frente.

– Nem começa – eu disse.

– Não acredito que você está há três meses falando com a menina, diz que já está apaixonada e nunca ouviu a voz dela. Não dá. Marca hoje um encontro.

– Nós vamos nos encontrar, calma.

– Não tô calma, amiga. Vai logo com isso. Você está criando cada vez mais expectativas. Vai que você não gosta da garota pessoalmente. Não dá pra namorar virtualmente, pelo amor de Deus!

Com a insistência da minha amiga, decidi marcar um encontro. No fundo, eu concordava com ela. Já estava em tempo de ver aquela mulher. Eu sonhava com ela diariamente, ficava imaginando o sorriso, como ela se comportava, os gestos.

Sugeri uma data e ela topou. O encontro estava marcado para a próxima sexta-feira. Fiquei ainda mais ansiosa. E se ela não gostar de mim? E se ela não for como estou imaginando? Respirei fundo e segurei a ansiedade.

O encontro

Coloquei uma das minhas melhores roupas, mas não quis exagerar na produção. Queria parecer o mais natural possível.

Marcamos em um bar. Eu cheguei primeiro. Minhas mãos tremiam. Decidi pedir um shot de tequila pra segurar o nervosismo.

Passados uns dez minutos do meu grande gole daquele destilado, vi uma mulher entrando.

Era ela. Igualzinho à foto. Definitivamente, era ela. Dei um sorriso, ela correspondeu.

– Oi, nossa, você é igual à foto – foi a única coisa que consegui dizer.

Antes de eu começar a me culpar por não ter nada mais interessante a dizer, ela respondeu:

– Você é ainda melhor.

Corei. Uau, ela que é ainda melhor. Procurei todas as minhas melhores frases, não veio nada. Dei um sorriso tímido, não consegui responder absolutamente nada e apenas perguntei o que ela iria querer comer e beber.

A noite foi passando e a conversa foi ficando mais agradável. Finalmente consegui me soltar. O papo estava incrível.

Eu já tinha umas 10 ligações perdidas das minhas amigas. Elas estavam por perto e queriam nos encontrar. Eu já tinha sido categórica, dizendo que eu tinha aquele encontro, mas elas queriam passar pra dar um oi. Acabei cedendo, afinal, amigas sempre insistem, não é?

As duas chegaram por lá, começamos uma conversa agradável e elas nos convidaram para uma festa ali perto. Eu neguei e disse que iríamos continuar por ali. Bianca* concordou comigo.

No final da noite, convidei Bianca para minha casa. Ela aceitou. Foi uma noite maravilhosa. O toque, o cheiro, a química. Era o início de uma relação que duraria anos.

A “transformação”

Quando começamos a namorar, o sexo era muito bom. Nos encontrávamos com frequência e em pouco tempo começamos a morar juntas, em uma casa, na capital paulista.

No começo, ela era uma boa companhia. Fez amizade com minhas amigas e elas até se ajudaram profissionalmente.

Comecei a perceber algumas crises de mudança de humor. No início, eram esporádicas, mas elas foram aumentando.

Ela começou a surtar de repente, por motivos inimagináveis. Um dia, se irritou e beijou um cara na minha frente. Sim, ela beijou um homem no mesmo ambiente que eu.

Quem era aquela mulher? Por que ela estava fazendo isso? Minhas amigas vieram falar comigo na hora. Pra melhorar a situação, a turma toda estava junto. Foi constrangedor.

Eu não sabia mais o que pensar sobre aquele relacionamento. Acabei perdoando, apesar de minhas amigas quase me trucidarem.

Decidimos marcar uma viagem com amigos. Essa seria uma viagem de reconciliação. Eu estava animada e ela também parecia estar.

No primeiro dia, correu tudo tranquilamente, apesar de ela começar a apresentar uma crise de ciúmes com o amigo dela. Não fazia o menor sentido, por isso deixei passar.

O amigo dela acabou se envolvendo com uma das minhas amigas. Foi quando Bianca se transformou. Ela quis ir até o quarto dos dois, bateu porta. Tentei impedir, ela me bateu. Socou minha cabeça na parede.

Quem era aquela mulher? Eu estava completamente chocada com aquela situação.

Minhas amigas todas saíram de seus quartos e tentaram conter a briga. Elas nos separaram e me levaram para outro quarto. Bianca chutou a porta, tentou entrar e desistiu depois de muitas tentativas.

Quando acordei, ela não estava mais na casa. Pegou o carro e dirigiu sozinha, de volta pra São Paulo.

O perdão e a rotina

Perdoei novamente Bianca. Quando a gente gosta, perdoa, né? Não vai acontecer de novo, foi apenas um surto.

Mas algo começou a acontecer. Eu, que sempre fui uma pessoa sexual, que procurava sempre por minhas namoradas, comecei a deixar o sexo de lado.

Não tínhamos nem dois anos de namoro eu eu já não desejava mais Bianca.

Obviamente, tô contando aqui apenas duas cagadas dela. Mas ela fez muitas outras. Com minhas amigas, minha família e comigo.

Ela realmente me fez brochar. E eu comecei a achar que era normal. Sim, eu naturalizei a minha falta de interesse. Associei à rotina, julguei que o amor é mais forte que tudo. Inclusive, mais forte que qualquer sexo.

Eu não precisava mais de sexo.

– O que? Você tá de brincadeira, né amiga? Como assim você não liga mais pra sexo? Eu te conheço, você ama sexo.

Quando relevei para minhas amigas, elas ficaram perplexas. As amigas sempre ficam perplexas, né?

– Gente, não faço mais questão. Quero fazer essa relação dar certo, mas ao mesmo tempo não tenho mais vontade, fazer o que?

– Mas amiga, peraí. Como você vai fazer uma relação dar certo sem sexo? E mais…sem amor. Vocês não têm mais uma relação amorosa. Só brigam. Vejam o que ela fez com seus amigos, com a sua família, com você. Ela não te agrega, só te coloca pra baixo.

– Sim, há poucos dias ela disse que se a gente terminasse, ninguém iria querer saber de mim. Eu engordei, amiga. Estou péssima. Quem vai me querer?

– Você está de brincadeira! Muitas mulheres iriam amar ter uma parceira como você. Veja a mulher maravilhosa que você é, você fez e faz tudo pela Bianca. Você tem um coração lindo e também é linda. Não permita que ela te deixe assim.

Esse foi o início dos sermões que comecei a levar das minhas amigas. Eu sabia que elas estavam certas, mas não queria admitir.

Na verdade, eu comecei a ficar irritada quando elas falavam. Foi mais fácil me afastar. Aliás, Bianca começou a proibir as minhas amigas de nos visitar. E eu aceitei. Era pelo nosso amor. Nós iríamos superar aquilo. O amor era mais forte.

Um ano se passou e as coisas pioraram. Eu comecei a me sentir cada vez pior.

Um dia olhei no espelho e não me reconheci. Há muito tempo eu não me olhava no espelho.

Levei um susto. Quem era aquela mulher? Eu já não sabia quem eu era.

Minhas amigas continuavam insistindo em me ver. Elas sempre insistem, né?

Um dia, resolvi encontrá-las. Desabei a chorar. Já fazia quatro anos e a situação só piorava. Bianca já tinha saído e voltado pra casa umas quatro vezes.

– Agora ela não volta, amiga. Acabou, não quero mais. Essa relação não me faz bem. Vou morar no quartinho de uma amiga – eu disse.

Minhas amigas não acreditaram. Eu sabia e elas também, que eu voltaria. Eu iria tentar de novo. E de novo. E de novo. Como eu sempre fazia.

Eu não a desejo mais. Sinto que talvez nem a ame. E eu sei que ela talvez não me ame também. Mas eu sinto que ela ainda pode mudar. Eu acreditei nessa relação, depositei todas as minhas fichas. Não dá pra jogar uma relação assim fora, né?

– Que relação? – minha amiga disse.

Eu não ouvi. Preferi não ouvir novamente. Bianca voltou pra casa mais uma vez. Era o momento de tentar de novo. Agora vai ser diferente.

Esse é um relato contado à autora do BlogSouBi. Qualquer nome é fictício à pedido das personagens, com intuito de preservar suas identidades.