Não sou ingênua. Sempre soube que o preconceito velado estava aí, só esperando para sair do armário.

Somos um país hipócrita. O brasileiro é o cidadão que mais mata LGBTs e ao mesmo tempo o que mais consome pornografia transexual.

Ao longo dos anos recebi mensagens de homens e mulheres que não conseguiam assumir a sexualidade para amigos e familiares. Essas pessoas sempre viram o blog como um canal de desabafo. Muitos deles ainda dizem: “Eu falo mal de gays para que nunca saibam que sou um deles” ; “Na frente dos meus amigos, sou bem macho. Só falo de mulheres. Nenhum deles imagina que eu tenho atração por homens e nunca poderão saber”.  

Na maioria das vezes, eu sou a primeira pessoa para quem eles contam seus verdadeiros desejos e medos. Essas pessoas não têm coragem de dizer o que realmente pensam e sentem no “mundo real”. 

Por que essas pessoas fazem isso? Elas têm medo. Uma pesquisa feita pelo BlogSouBi, com 3.407 internautas identificou que 54,9% dos bissexuais já falaram mal de gays apenas para agradar as pessoas. E qual o objetivo de agradar? Não ser excluído, fazer parte do grupo. Não querer ser “diferente”.

É o que chamamos de heterossexualidade compulsória, termo culminado pela feminista Adrienne Rich, cuja definição é a ordem dominante pela qual homens e mulheres se veem solicitados ou forçados a “serem” heterossexuais. 

“Não quero decepcionar os meus pais”, é o que essas pessoas costumam me dizer. Ser homossexual é visto como uma decepção, como algo que “não está certo”. É algo fora “da ordem” e dos “bons costumes”.

O que isso causa? Hipocrisia, medo, angústias. Essa mulher tentou “deixar de ser lésbica” por 40 anos. E esse homem, defensor da “cura gay”, pediu desculpas à comunidade LGBT pelo sofrimento causado aos seus “pacientes”. Na verdade, ele era um gay que não se aceitava e queria fazer o mesmo com outras pessoas.

O que tudo isso quer dizer? Que ser heterossexual e ter uma família tradicional seria o certo. 

E então vem um “cidadão de bem”, candidato à presidência, e diz que preferia ter um filho morto a um filho gay. E ele acrescenta, sem nenhum preconceito velado, que filho gay precisa ser espancado pra entrar na linha. 

O que começa a acontecer no país? Aquelas famílias que praticavam o preconceito dentro de casa e evitavam fazer manifestações públicas sobre isso, começam a se sentir confortáveis para agredir homossexuais.

E essas mesmas pessoas também começam a se sentir confortáveis para agredir mulheres, negros, nordestinos.

Calma. Não estou dizendo que se você é a favor deste candidato, você é racista, homofóbico ou misógino. O que estou tentando dizer é que muitas pessoas a favor dele agora estão expondo suas repulsas sem qualquer preocupação.

Todos esses preconceitos existem há muito tempo e – muitas vezes – os opressores saíram impunes. No entanto, nos últimos anos, a comunidade LGBT passou a ter mais esperança. Muitos países do mundo viram a aprovação do casamento gay (no Brasil, ela aconteceu em 2013). Surgiram políticas públicas, dentre elas o Sistema Nacional de Promoção de Direitos e Enfrentamento a Violência contra LGBT

As políticas e os direitos adquiridos foram suficientes para acabar com o preconceito? De forma alguma. Elas dão apoio, podem diminuir o sofrimento, mas não resolvem. O problema é cultural.

E é isso que as pessoas ainda não compreenderam em todos esses debates vazios que estão invadindo a internet. Não foi esse candidato que trouxe o preconceito – que nunca deixou de existir. 

Ele está reforçando a cultura da homofobia. Aquela cultura que há anos as minorias estão tentando transformar.

A busca por uma transformação que tenta salvar vidas. Que deseja tirar da marginalidade transsexuais. Que evita suicídios – muitos gays não aguentam a pressão social e decidem deixar de viver.

Desde que as eleições começaram, choveram mensagens na internet dizendo não aguentarem mais o “politicamente correto”. E o que seria o “politicamente correto”? O respeito às minorias? A abolição de piadas machistas, racistas e homofóbicas que nada acrescentam à sociedade? 

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Esse candidato convida as pessoas a “debocharem” novamente. E ele debocha de praticamente todas as minorias:

Gays
“Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater.” 

Negros
“Eu não corro esse risco, meus filhos foram muito bem educados”(Bolsonaro para Preta Gil, sobre o que faria se seus filhos se relacionassem com uma mulher negra ou com homossexuais)

Mulheres
“Mulher deve ganhar salário menor porque engravida” (Bolsonaro justificou a frase: “quando ela voltar [da licença-maternidade], vai ter mais um mês de férias, ou seja, trabalhou cinco meses em um ano”)

Inocentes
“O erro da ditadura foi torturar e não matar.” (Jair Bolsonaro, em discussão com manifestantes)

Meritocracia charge

Essas frases já foram compartilhadas em muitos canais na internet. Mas isso não mudou a opinião de parte do eleitorado. Pior: muitos gays, mulheres e negros vão votar em Bolsonaro.  Por quê? 

A principal resposta é: as pessoas estão fartas da corrupção. E neste ponto, elas não estão erradas. O erro está apenas em acreditar que ela é exclusiva de um partido e que um “novo partido” ou um “novo candidato” não pratica e nem irá praticar atos corruptos. 

Não vou defender nenhum candidato. Também não dá para defender nenhum partido. Muitos deles estão desfrutando de uma fatia do bolo da corrupção. E enquanto isso, continuamos vivendo no 10° país mais desigual do mundo. Sinceramente, não acredito que nenhum dos dois candidatos esteja disposto a mudar isso a curto prazo (e nem sei se eles conseguiriam). 

Mas essa desigualdade pode ficar pior. Paulo Guedes, coordenador do programa econômico de Bolsonaro, quer estabelecer uma alíquota única de Imposto de Renda de 20% para pessoas físicas e jurídicas. O que isso significa? Pobres e ricos vão pagar o mesmo imposto. Logo, o abismo da desigualdade aumentará ainda mais. 

O Brasil está entre as 10 maiores economias do mundo. E em 2030, deve permanecer no Top 10, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Precisamos sempre nos preocupar com desenvolvimento econômico? Sem dúvida. Mas o nosso maior problema está no social. 

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também parece não estar preocupado com o social. De que adianta ser a maior economia do mundo se o país registra aumento do número de sem-teto

Onde o foco exclusivo na “economia” está nos levando? Quando vamos nos dar conta de que é essencial pensar no social e que essas são as pautas mais importantes para uma sociedade? 

A política do ódio

O país está rachado. Pais e filhos estão brigando por política. Amizades estão sendo desfeitas. Muitos estão se decepcionando. De um lado, a decepção está relacionada àqueles que veem as pessoas “apoiarem” discursos de ódio. Do outro, a decepção assola os que assistem os cidadãos dispostos a “favorecer” um partido corrupto.

É preciso fazer uma divisão justa. Há aqueles que realmente apoiam os discursos de ódio de um dos candidatos. E também há aqueles que realmente depositam todas as suas fichas em um dos partidos que participou de vários esquemas de corrupção.

Fora dessa divisão, estão aqueles que fizeram a “escolha menos pior”. E isso vale tanto para candidatos de Jair Bolsonaro quanto de Fernando Haddad.

Nesta segunda divisão os embates são recheados de frases como:

“Eu não vou votar no PT de jeito nenhum. Nenhum dos candidatos é bom. Não será uma escolha feliz, mas não posso votar neste partido corrupto”

“Nunca vou votar em alguém que prega o ódio, ‘promove’ a ditadura e promete fazer um política elitista”

“Faz 16 anos que o país está nesse mar de corrupção. Não aguento mais”.

“Estamos com medo do que pode vir a acontecer com as minorias e com uma economia que promete ampliar a desigualdade”

Nenhum dos dois candidatos parece que vai trazer uma real mudança para o país. Seria ingenuidade acreditar isso. E já sabemos que ninguém aqui é ingênuo. Mas fica mais fácil deduzir quem vai aprovar mais projetos para diferentes camadas sociais.

Reflitam sobre leis que irão favorecer mulheres, negros, homossexuais e outras minorias. Dentre as funções de um presidente, listadas abaixo, qual será o resultado dos projetos que incluem essa parcela da sociedade?

  • Conduzir a política econômica
  • Editar medidas provisórias
  • Aplicar leis aprovadas
  • Vetar projetos de lei
  • Manter relações com Estados estrangeiros e indicar seus representantes
  • Declarar guerra, em caso de agressão estrangeira

Fonte: Brasil Escola

Por que ele adotaria uma política diferente, que poderia favorecer minorias, se antes de ser presidente já reforçou a sua repulsa a todas elas? Se você tem parentes, filhos ou amigos homossexuais, pense que os projetos para essas pessoas não serão aprovados.

Políticas para negros? Sem chance. 

Mulheres? Quando deputado, Bolsonaro pediu fim da lei que garante atendimento a vítimas de estupro

Uma das pessoas do meu círculo social, que está defendendo Bolsonaro veementemente, me disse que “precisamos nos preocupar com pautas mais importantes” (excluindo questões sociais das pautas importantes).

Segundo essa pessoa, temos de nos preocupar com a bolsa de valores, com a economia. Sem dúvida, o desenvolvimento econômico é importante. Não à toa, uma das principais funções de um presidente é conduzir a política econômica. Mas o rumo dessa política econômica deve se preocupar em acabar com a desigualdade e oferecer direitos iguais a todos os cidadãos. Como a cultura do ódio vai favorecer uma política com esses focos?

Independentemente de quem ganhar essa eleição, só quero ter a esperança de que a sociedade conseguirá se unir e não apoiar a criação de novos abismos que irão dividir o país em mais outros tantos pedaços.

Não devemos brigar por um ou outro candidato. Devemos nos unir para acabar com a cultura do ódio que fez o nosso país ficar ainda mais dividido. O problema em apoiar Bolsonaro não está em escolher o lado que você julga “menos pior” e sim em concordar verdadeiramente com as ideias dele. E se você for uma dessas pessoas, posso lhe garantir que você não está colaborando para um futuro melhor. Pelo menos, não para todos.

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