Você já ouviu o termo catfish? Basicamente, é alguém que cria um perfil fake na internet, começa a conversar com outra pessoa e nunca revela quem realmente é. E há muitas pessoas assim. Tantas pessoas que a MTV até criou um programa de TV com esse nome. 

A primeira coisa que pensei quando vi o programa há muitos anos é: quem cai em algo assim? Quem poderia ficar tanto tempo conversando com uma pessoa sem saber realmente quem ela é? E eu me questionava: é preciso estar muito carente para viver algo assim, não?

Não. Pelo menos não necessariamente. As linhas a seguir serão um relato real de uma mulher que viveu um catfish com outra suposta mulher. Chamaremos as duas pessoas de Patrícia e Letícia. 

Como conheci Letícia

Quando comecei a conversar com Letícia, estava em um momento de tentar me encontrar, principalmente no trabalho. Não sabia muito bem se faria transição de carreira, se continuaria trabalhando em um escritório ou se abriria uma empresa. Naquele momento, eu estava perdida. 

Sabe aquele vazio que você sente e tenta preencher? E nada parece preencher. 

Eu queria apenas conversar com pessoas para me distrair. E então, em uma sala de bate-papo bem “oldschool”, comecei a conversar com ela.

Ela era muito inteligente e sabia escolher bem as palavras. Era divertida, muito divertida. O papo rendia e ela sempre tinha boas histórias pra contar.

Ela contava que era lésbica e era bem criteriosa para escolher suas namoradas. Sinceramente, não me lembro bem como ela se descrevia fisicamente, mas depois de algum tempo de conversa, uma imagem quase nítida daquela pessoa já havia sido desenhada na minha cabeça. Ela nunca mandou uma foto ou absolutamente nada que pudesse revelar um pouco mais sobre ela.

Tudo bem ser fake…

Até certo momento estava tudo bem. Saber quem era ela não era realmente necessário, pois havíamos criado, na verdade, uma amizade. Eu gostava de ler as histórias, saber sobre o mundo dela. Ficava interessada nas experiências que tinha tido principalmente no final de semana com algumas mulheres que ela saía. Não era nada íntimo.

– Hoje vou sair com aquela menina que te contei, sabe? Cabelos pretos, lisos e com um sorriso lindo.

Letícia dizia sempre que o que mais gostava em uma mulher era o sorriso. Ela dizia não ligar para aparência, mas deixava alguns rastros dando a entender que a aparência dela chamava atenção. Ela dizia ser abordada frequentemente por homens. De vez em quando, também se envolvia com eles, mas contava que não era a mesma coisa que estar com uma mulher.

Naqueles dias em que eu parecia não estar bem, conversar com aquela pessoa me deixava melhor.

Mas nitidamente eu não estava bem. Eu sentia a minha autoestima baixa e a minha mulher na época também estava tentando compreender o que fazer. O relacionamento não estava bem.

Continuar conversando com essa pessoa não foi bom. Destruiu muitas coisas que poderiam ter sido conversadas. O meu relacionamento poderia ter terminado de um jeito menos dolorido. Eu fui imatura em muitas situações e ela também teve seus erros. Claro que hoje eu faria tudo diferente, principalmente porque eu não queria ter causado nenhuma mágoa. Eu realmente não estava bem.

E tudo piorou quando as conversas se tornaram mais frequentes. Eu comecei a querer conhecer Letícia. E esse sentimento não foi bom, não foi legal. Começou a me consumir de uma forma ruim. Conversar passou a ser um vício e não algo saudável. Não era mais uma troca sobre a vida de cada pessoa, mas uma necessidade de preencher um vazio que nunca era saciado.

Eu queria corrigir o meu relacionamento idealizando tudo o que eu queria que fosse melhor. Tudo aquilo era fake. Eu idealizei o que eu queria para a minha relação em algo totalmente falso.

Na verdade, não tava tudo bem ser fake

Eu e Letícia sabíamos que não tava tudo bem. Ela não falava comigo de propósito, com qualquer intuito ruim de me manipular. Pelo menos, era o que eu achava. Ela parecia ser uma boa pessoa. Ela decidiu um dia que pararia de conversar comigo, porque aquilo não estava bom.

E realmente não estava. Eu também não queria mais aquela situação, mas a minha mente não estava bem. A saúde mental estava realmente abalada. Eu já não sabia mais quem eu era, o que queria. Sentimentos de culpa começaram a invadir todo o meu corpo em busca de qualquer explicação plausível para tentar explicar por que eu conversava com uma pessoa fake todos os dias, por pelo menos 6 horas.

Paramos de conversar. Foi bom temporariamente, eu consegui descansar do vício de preencher aquele vazio. Tentei preencher com terapia. Tentei fazer outras atividades.

Catfish foi uma fuga…

O vazio continuou por algum tempo. E ficou ainda mais intenso quando terminei o meu relacionamento que era real. Eu precisava me encontrar.

Cheguei a rascunhar alguns e-mails para Letícia com o intuito de preencher algo que eu nem sabia mais o que era. Mas felizmente não fiz. Não era real, nunca foi. Pode ser diferente para cada pessoa, mas a minha experiência de catfish me mostrou que eu estava fugindo. Eu fugi de mim mesma por algum tempo, porque me perdi de alguma maneira. Por um tempo, fiquei sem propósito, não sabia qual era a minha missão. O livro O Poder do Mito me ajudou a refletir sobre os meus próximos passos. Aos poucos, fui me reconstruindo para viver a realidade que eu fugi por um tempo.

O que restou foram mágoas e um sentimento de culpa que demorou para ser curado.

Para quem está vivendo uma situação similar e conversando com uma pessoa que não quer revelar sua real identidade e sempre se esquiva, busque todas as alternativas para parar o quanto antes. Só depois de parar é que você vai se surpreender e entender como as relações reais ajudam na nossa autodescoberta.